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Floresta assustador

II

   A noite estava avançada, e na escuridão do escritório o único nicho de luz era o do monitor do computador que iluminava o rosto de Thomas. A música clássica vazava abafada do headset, porém não alta o suficiente para acordar Veronica, que dormia no quarto ao lado.

  Thomas pesquisava informações sobre mais um caso de desaparecimento em Londres. Os fórums públicos da internet estavam cheios de teorias da conspiração sem sentido, e alguns Youtubers um pouco mais sérios só discutiam o óbvio. Ele, por outro lado, fazia parte de um grupo mais seleto, e trocava informações em um fórum privado. Sentia falta de Isaac Danpora. No pouco tempo que o amigo estivera ativo no fórum, sempre trazia excelentes pontos às investigações que faziam. O garoto parecia sempre ter alguma informação que ninguém mais tinha acesso. Porém, há meses ele não aparecia online.

  Sentiu certa movimentação no andar de baixo da casa, como quem sente os passos de uma pessoa no assoalho, sem precisar ouvi-los. Retirou o headset. Além do som da tempestade, ouviu apenas o silêncio.

  "Veronica?"

  Nenhuma resposta. O instinto falou mais alto. Os costumes de um investigador da Scotland Yard, cultivados durante décadas, haviam criado raízes muito profundas em Thomas para que os esquecesse, mesmo que já estivesse aposentado. Abriu a porta do escritório e espiou pelo parapeito da escada. Algo tinha caído - ou teria sido derrubado? - no andar de baixo, e ainda fazia um som fugaz, como uma moeda que demora a assentar após cair ao chão. Abriu a porta do quarto devagar. Pela fresta, viu que Veronica dormia tranquila.

 

  Tentou descer as escadas em silêncio, mas se os costumes de investigador ainda estavam vivos na sua memória, o corpo já não era o mesmo. Assim como ele, sua casa em Londres já mostrava os sinais da idade. Os degraus rangeram alto, por maior que fosse o cuidado que ele tomou ao pisar. Sem mais esperança de furtividade, desceu o restante dos degraus com pressa.

  A luz da sala estava apagada, mas a luz da lua preenchia o ambiente com uma penumbra sinistra. Tudo era sombras e sugestões. A ventania drapejava as cortinas de uma janela aberta. Um dos descansos de copo que deveria estar sobre a mesa havia caído ao chão - ou teria sido derrubado?

  Na penumbra, aquele envelope branco sobre o sofá era destaque, com seus detalhes pintados a mão, e seu selo de cera vermelha.

  Para Thomas, a cena era óbvia: estava diante de uma cena de invasão domiciliar. Restava saber o que havia dentro daquele estranho envelope.

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