• Marco Piscies

Audacia


Das reflexões de Tella Andoren, Sumo Sacerdotisa de Lena, sobre a alma e a vida, um trecho.

É impressionante o quão pouco sabemos sobre a vida e a alma. Graças à bênção de Lena nós as manipulamos, realizamos curas e até mesmo trazemos de volta os mortos. Mas entendê-las é um assunto inteiramente diferente.

Tome a alma como exemplo; ela é um dos maiores mistérios de Arton. Sabemos muito pouco sobre ela, mas mesmo entre os estudiosos da alma há um conhecimento que parece um segredo velado; algo tão raro de acontecer que os poucos relatos de sua ocorrência são descartados como frutos de delírios. Este conhecimento é o seguinte:

Diz-se que toda alma tem um mecanismo de defesa singular. Quando diante da destruição ou corrupção iminente, ela se condensa em energia sólida e se transforma em uma pedra-alma, incorruptível e indestrutível. Quando li pela primeira vez os relatos sobre esta pedra, meu coração regozijou. Pude notar no mesmo instante a mão de Lena nesta maravilhosa criação.

Mas Arton é cheio de mortes injustas e perigos terríveis, então por que a ocorrência de pedras-alma é tão esparsa? Simples. Apenas as almas plenamente puras têm material e força para criá-las, e Arton carece de almas puras tanto quanto carece de um pouco de paz.

I – Loucura

Um homem louco balbuciava palavras desconexas na beira da estrada. Faltavam-lhe dentes e o cabelo era uma massa disforme de palha cinzenta. Segurava em seus braços um bebê que, incomodado com a fome e o calor, chorava copiosamente.

Um fazendeiro entre tantos outros que atravessavam a estrada parou seu cavalo e o chamou. O louco não respondeu. Cheirava mal e babava, os olhos vidrados, a mente destruída. O fazendeiro era um bom homem e, preocupado, pegou a criança para si, deixando o louco para trás.

Na fazenda chamaram-no de Helric e o criaram como um filho. Eram uma família simples, pobre e trabalhadora. Entre outros cinco irmãos e irmãs, o garoto aprendeu rápido três importantes lições:

A primeira foi que tinha poderes; que poderia ver e fazer coisas que outros jamais entenderiam.

A segunda foi que, vivendo em Yuden, poderes como os dele poderiam ser mal interpretados. Além disso, por mais que trabalhasse duro na fazenda, todos temiam que ele desenvolvesse, cedo ou tarde, a loucura do homem que achavam ser seu pai. Por isso manteve seus poderes em segredo.

A terceira coisa que aprendeu foi que a Tormenta o chamava. Soube daquilo quando falaram dela pela primeira vez ao redor de uma fogueira enquanto contavam histórias assustadoras. Seus irmãos e irmãs abraçavam-se e rezavam para que Valkaria os protegesse daquele fenômeno alienígena. Ele, por outro lado, ficou maravilhado.

As vozes da Tormenta começaram a ecoar em sua cabeça a partir daquele dia. Estavam dentro dele; eram ele, e ele era a Tormenta.

Muito longe de tudo aquilo, o homem louco seguia a falar para o vento. Estava próximo da Tormenta e fitava com olhos desesperados o aglomerado espiralante de nuvens que se erguia centenas de metros adiante. Acovardava-se; tinha que ir até lá, mas não tinha coragem. Por isso ficou ali, na beira da estrada onde ninguém caminhava, esperando.

II – Sal

Quando o nascimento de uma Tormenta era avistado no horizonte, cidades inteiras eram abandonadas. O povo fugia em um êxodo desesperado, alavancado pelas lendas e pelo medo exacerbado, deixando para trás ruas e casas vazias e muros que nada protegiam. Ninguém gostava de comentar sobre aquelas cidades abandonadas; sua existência era lembrete constante de um terror demasiado próximo.

Em Zhakharov, em uma daquelas cidades abandonadas, Helric andava pelas ruas pavimentadas de um antigo bairro nobre. Uma forte ventania uivava pelas paredes das casas. Escolheu a residência que mais chamou sua atenção: uma que se espalhava no centro de um extenso jardim de plantas mortas. O portão estava aberto e se debatia contra o muro. Cruzou o jardim e abriu a porta de folhas duplas; as dobradiças se moveram com um ranger prolongado e lúgubre. A residência estava imersa em um silêncio perturbador, quebrado apenas pelo vento e os trovões lá fora. Acendeu uma lanterna; o fogo bruxuleante projetava sombras fantasmagóricas nas paredes e revelava os sinais do tempo e do abandono.

Tudo aquilo era lugar-comum em seu trabalho. Helric retirou das costas uma mochila vazia e iniciou a busca por tudo de valor que pudesse encontrar. Em cidades abandonadas como aquela havia riquezas esperando para serem descobertas tais quais as ruínas de antigas civilizações. Abriu gavetas, tirou livros do lugar, revirou armários. Encontrou uma abundância de objetos de valor e jogou-os todos dentro da mochila.

Caminhou para fora da mansão horas depois com a mochila pesada. Foi recebido por um sol que descia no horizonte e a mesma ventania pungente. Levantou a gola do casaco, pronto para partir. Foi quando as vozes em sua cabeça voltaram a falar.

Dois Rios, elas diziam, e Helric fechou os olhos. Venha. Você pertence a Dois Rios.

Ouvia aquelas mesmas palavras desde suas memórias mais antigas. As vozes em sua cabeça soavam mais altas e com maior frequência quanto mais se aproximasse da Tormenta, e ele estava muito próximo agora. Certo dia encontrou as mesmas palavras em um mapa de Ramnor, marcando uma cidade portuária em Trebuck completamente engolfada por uma Área de Tormenta. Dois Rios. A Tormenta o chamava até lá e ele a ignorava da melhor forma que conseguia.

Balançou a cabeça até as vozes pararem, mas sabia que voltariam em breve. Em uma decisão súbita, ao invés de seguir para fora da cidade, guiou seus pés na direção de onde nascia a ventania. Cada passo era mais difícil do que o anterior. O pavimento ficou para trás, dando lugar a ruas de terra; o pó que cobria o chão corria ao seu encontro como se fugisse de onde quer que ele estivesse se dirigindo. Um relâmpago cruzou o firmamento de ponta a ponta como um presságio.

Helric virou uma esquina e, súbito, lá estava ela: A Tempestade Rubra.

Não importava quantas vezes a avistasse, a Tormenta nunca deixava de impressioná-lo. Mais de um quilômetro adiante, maior e mais alta do que qualquer outra coisa no horizonte, ela era um turbilhão confuso de nuvens, chuva escarlate e trovões. Havia, porém, algo a mais em avistá-la; algo que o cérebro lutava para entender – ou, em último caso, esquecer. Vê-la assim de tão perto era fatal para a maioria. Alguns enlouqueciam; outros entravam em um inexplicável estado catatônico.

Helric, por outro lado, a admirava.

Para ele, a Tormenta era um único ser tão perfeito quanto distorcido; tão divino quanto profano. Helric travava uma guerra interna sempre a avistava: sua beleza o atraía; sua imensidão o confundia; suas consequências o repeliam.

Estava em um ponto alto da cidade onde havia um mirante e, nele, a estátua de uma criança emprestava um tom lúgubre à cena. Era de um branco amarelado, com uma base larga, quase como se houvesse derretido em algum momento. Aos seus pés jazia o corpo inerte de um elfo. Helric se aproximou devagar. A estátua parecia feita de algum material granulado, como areia. A criança estava voltada para o Norte, os olhos fitando diretamente a Tormenta, as mãos esticadas naquela direção como que oferecendo algo. Uma pedra descansava naquelas mãos, refletindo a luz parca do sol em tons de azul. Helric interrompeu a caminhada. Havia algo de errado naquela cena.

Pela forma como estava vestido, o elfo no chão parecia ter sido um aventureiro. Não respirava e o corpo era recente. A terra ao redor dos dois parecia nova; mais nova do que o resto da cidade.

Isso aconteceu há apenas alguns dias, ele pensou, analisando a cena e contornando um limite invisível para a maioria, mas não para ele. Ainda assim, ambos estão aqui há anos. Uma armadilha feita no tempo.

A cena diante de si era como uma piada doentia. A estátua e tudo ao seu redor eram um aviso aos incautos criado pela própria Tormenta. Ali estava uma pedra brilhante – uma joia preciosa e atrativa nas mãos de uma menina inocente; o símbolo da pureza. Quem se aproximasse, porém, cairia aos poucos em um estupor temporal, cada batida de coração mais vagarosa que a anterior, até por fim parar por completo. O elfo ao chão morrera com o braço esticado tentando alcançar o alvo de sua ambição, tendo agonizado em um fim terrivelmente lento.

Helric enxergava a verdadeira natureza daquela armadilha. Com o pensamento acessou outras dimensões e seus passos traçaram ângulos impossíveis. Esticou o braço por um espaço infinito e, ainda assim, apenas alguns centímetros até tocar nas mãos da criança-estátua e tirar dela a pedra. Quando a trouxe para si foi como se trouxesse a própria menina ali retratada; a sensação era a de que a abraçava. Afastou-se da zona maculada e, por curiosidade, levou um dos dedos à boca - um que havia tocado a estátua.

Sal.

Analisou a pedra. Era perfeitamente circular. Apesar de opaca, algo em seu núcleo mudava os matizes do azul em nuances quase imperceptíveis. Súbito, sentiu uma grande tristeza; uma que emanava justamente daquela pedra.

Helric refez o caminho de volta e foi encontrar Grevas no mesmo lugar onde o havia amarrado, ao pé de uma árvore e pastando, despreocupado. O aventureiro montou o cavalo e, após certificar-se que a pedra estava segura no alforje, galopou de volta para Yuden.

III – O Bom Aventureiro à Casa Torna

No auge de seus onze anos, Soren lutava pela vida. Golpeava habilmente com o machado, mas cada vez que a lâmina encontrava a carne de um orc outros dois surgiam para tomar seu lugar. Não viu quando a espada veio em sua direção e o atingiu de raspão. A dor o fez fraquejar.

Levou a mão para dentro do gibão e puxou para fora a pequenina estátua de Audacia, a Deusa dos Aventureiros, que carregava sempre junto ao peito. Era um artefato simples de madeira, mas apenas o ato de tocá-la, porém, foi o suficiente para renovar suas energias. O menino pôs força nos joelhos e ergueu o braço para aparar o ataque de um novo inimigo que se aproximava. Desengonçado, porém, deixou que o machado escapasse dos dedos e voasse metros adiante, por sorte não encontrando nada frágil no caminho.

— É por isso que não se segura o machado na ponta do cabo – sua mãe o observava de trás do balcão com um sorriso doce – vem cá, eu te ensino.

Soren andou entre as mesas do salão principal da estalagem onde morava. Era um lugar simples e honesto e que trazia o sustento para ele e sua mãe. Naquela tarde havia quatro clientes no salão, e nenhum deles prestou muita atenção no menino e seu machado de brinquedo. Soren retornou à mãe com um pouco de vergonha e frustração.

— Preste atenção – Galandria iniciou a breve aula – o machado é mais pesado em uma das pontas, então se sua mão estiver muito longe da lâmina você pode perder o equilíbrio, como aconteceu agora.

— Então eu pego aqui? – ele segurou no meio no cabo.

— Nem no meio, nem na ponta – Galandria ajeitou sua mão na arma até que estivesse no lugar ideal – Cada machado tem um peso então cada um vai pedir uma empunhadura diferente.

Soren sentiu a diferença no mesmo instante. Agradeceu a lição e correu para matar mais orcs, desta vez no quintal, onde não corria o risco de quebrar alguma coisa.

Galandria deixou de lado por algum tempo os afazeres do negócio e foi até a janela observar o filho. Não pôde deixar de sorrir. Soren lutava contra criaturas imaginárias em uma inocência nostálgica. Súbito, um pequeno detalhe fez seu sorriso murchar. Notou a estátua de Audacia balançando junto ao peito do menino. Seus pensamentos logo enveredaram para o seu falecido marido, morto em algum lugar em Deheon ainda nos primeiros dias da guerra.

Trevon insistiria que ele se livrasse daquela estátua e começasse a estudar a veneração a Keenn e Valkaria. Falaria que está na hora de começar a se tornar um homem, ela pensou e, por um momento, era como se a voz do marido ecoasse em seus ouvidos. Audacia é apenas uma deusa local, ele falaria, deve ser respeitada, mas o menino tem que aprender que mesmo entre deuses há uma hierarquia.

Galandria nunca entendera a diferença entre deuses maiores e menores. Eram todos deuses para ela. Trevon era quem a guiava nos assuntos religiosos, mas o marido estava morto e agora cabia a ela guiar o filho nas mesmas veredas. Adiante, Soren tropeçou e caiu mas, impetuoso, rolou para trás e fingiu que nada passou de um movimento calculado. Galandria soltou uma gargalhada.

Enquanto brincava, Soren ouviu o som dos cascos de cavalo e seu coração acelerou. Correu até o estábulo para confirmar a suspeita: Helric, o aventureiro que passara os últimos meses hospedado na estalagem, voltava de viagem.

— Senhor Helric!

— Garoto. Não tinha te visto aí.

— Deixa eu cuidar de seu cavalo?

Helric desmontou de Grevas e afagou sua crina, passando as rédeas para as mãos diminutas do menino. Esforçou-se para não parecer desanimado e obteve êxito; Soren estava empolgado demais com sua chegada para notar.

— O senhor deve ter viajado muito. Ficou fora quase um mês! Vai me contar algumas histórias de onde esteve? – perguntou enquanto guiava Grevas para a baia.

— Talvez – Helric respondeu e, afagando os cabelos do menino, despediu-se.

Quando ouviu o som do cavalo no estábulo, Galandria limpou as mãos no avental, ajeitou o cabelo e foi para o balcão. Pouco tempo depois a porta da estalagem se abriu e Helric entrou. Era alto e esguio, apesar da musculatura evidente. A indumentária estava empoeirada pelos dias de viagem.

Carregava nas costas seu alforje e a mochila vazia e, na cintura, uma espada longa dentro da bainha. O rosto estava sujo, clamando por um banho.

Helric caminhou até ela e deixou cair sobre o balcão algumas moedas de ouro.

— O que é isto? – Galandria perguntou.

— Você tem que me deixar pagá-la em algum momento.

A mulher puxou para si o rosto do aventureiro e o beijou.

— Você me paga com sua presença.

Helric abriu um sorriso cansado.

— Que seja, então.

— Você está um caos. Vou preparar um banho.

— Eu ficaria eternamente grato – e foi para o quarto.

Os olhos de Galandria acompanharam-no até que sumisse nas escadas, e o seu sorriso se desfez apenas um pouco. Estava feliz em revê-lo, mas ele não parecia tão feliz quanto ela.

Não muito tempo depois, Helric se encontrava submerso em água morna, perfeita para desatar os músculos enrijecidos pelos dias de viagem a cavalo. A estalagem oferecia uma cisterna privada, iluminada por duas lanternas e fechada por uma pesada porta de madeira, o que criava uma atmosfera relaxante.

Segurava diante dos olhos a pedra-alma que encontrara dias atrás. Ela servia como prisma para a luz das lanternas que, refletida na água, projetava imagens dançantes na parede rochosa. Helric ponderou se aquelas imagens não seriam os sonhos da garota cuja alma residia em suas mãos. Entristeceu-se. A viagem de volta para casa estivera cheia daqueles momentos. Sempre viajava sozinho mas agora que carregava aquela pedra consigo sentia-se acompanhado constantemente por uma presença monótona; um alguém invisível que enchia seus pensamentos com culpa e outros mil pesos insuportáveis.

Dois Rios. As vozes em sua cabeça sussurravam. Você nos pertence, você pertence a Dois Rios.

Galandria abriu a porta e as vozes foram embora.

— Posso me juntar a você?

— Eu contava com isso.

A mulher entrou e se despiu. Era muito bela. Helric tinha respeito pelo acordo tácito entre eles; sabia que servia como um curativo para uma ferida muito recente; como um preenchimento para o vazio que o ex-marido de Galandria deixara ao morrer. Em troca, ela o completava. Perto dela as vozes da Tormenta mal se manifestavam; perto dela Helric se sentia mais humano.

Ela entrou na cisterna e entrelaçou suas pernas nas dele, trazendo um pouco mais de calor à água morna.

— Achei que tinha vendido tudo o que encontrou – ela falou, olhando para a pedra que ele segurava.

— Tudo menos isso.

O aventureiro pôs a pedra sobre uma toalha. O artefato parecia absorver a luz do lugar, trazendo para si toda a atenção do casal.

— E o que é isso, afinal? – Galandria parecia incomodada, por vezes olhando para os lados como se procurasse alguma coisa.

— Uma pedra-alma.

— Eu nunca ouvi falar em... tem alguém aí? – a mulher olhou ao redor, ligeiramente assustada. A pergunta soava tola, já que a cisterna não tinha esquinas ou lugares para alguém se esconder, mas Helric entendeu o que ela sentia.

— Sim, há alguém aqui além de nós. Quer dizer, está aqui tanto quanto não. Esta pedra guarda a alma de uma pessoa. Por isso o nome. Em muitos sentidos ela é a alma de alguém.

Galandria se sobressaltou, afastando-se do objeto.

— Existe... alguém ali dentro?

— A alma de alguém, sim. Por isso não a vendi. Seria como vender uma pessoa, como se eu fosse um maldito minotauro. De qualquer forma, que tipo de pessoa teria interesse em comprar a alma de alguém?

A imagem da estátua infantil feita de sal assaltou seus pensamentos e ele estremeceu.

— É por isso que você está deste jeito? – Galandria se compadeceu do olhar triste do aventureiro e se aproximou, virou-o de costas e começou a massageá-lo — Está sentindo o peso do que vê, não é? Lembra do que me falou quando me contou sobre o seu trabalho? Você disse que tudo o que fazia era se apossar de coisas que as pessoas haviam abandonado. Nada tinha que ver com glória, honra ou heroísmo. Não há como desfazer o que a Tormenta já fez.

Ele lembrava de cada palavra, mas nem por isso se sentia menos pesado. A presença da pedra ao seu lado o incomodava – lembrava-o de sua verdadeira natureza e do chamado que vinha negando por tanto tempo.

Uma ideia tinha criado raízes em seus pensamentos há alguns dias enquanto viajava, e Helric sentiu que estava na hora de pô-la em prática.

— Há uma forja na estalagem, não há? – ele perguntou.

— Sim, mas está abandonada. Era a forja de Trevon. É bem pequena, servia apenas para fazer ferraduras e consertos.

— Está utilizável?

— Acho que com uma boa manutenção poderá voltar à ativa – e, após desatar mais um nó em seu trapézio, ela prosseguiu – posso saber o motivo?

Ele se virou e a beijou.

— Eu aviso quando puder.

IV – Forja

Helric passou as duas semanas seguintes trancafiado dentro da forja, saindo apenas para comer, tomar banho e dormir. Alterou todo o lugar, comprando novos materiais com o dinheiro de sua última expedição, de tal forma que a forja agora mal parecia a mesma.

O sol estava alto no céu e Soren brincava com alguns amigos na rua quando ouviu a voz de sua mãe:

— Soren! Quer me ajudar a levar o almoço para Helric?

O rosto do menino resplandeceu. Não era sempre que levavam comida para o homem na forja; aquilo acontecia apenas quando Helric estava absorto demais em seu trabalho a ponto de esquecer de comer. Naqueles momentos ele tinha a oportunidade de entrar no lugar para servi-lo, o que era sempre uma espécie de aventura. Por isso, sem pensar duas vezes, correu de volta à estalagem, avisando aos amigos que voltaria mais tarde.

— Pegue a caneca de vinho – Galandria atravessava o quintal carregando consigo uma bandeja com sobras do almoço e outros petiscos. Soren foi até a cozinha, pegou a caneca e atravessou a extensão do lugar como uma bala de canhão, alcançando a porta da forja antes de sua mãe e abrindo-a com os ombros em um só golpe. Galandria tentou impedi-lo tarde demais.

Helric foi surpreendido com a entrada repentina e, em um reflexo, jogou uma lona sobre o trabalho inacabado, escondendo-a de olhos curiosos. Ao lado da lona a pedra-alma jazia indiferente ao calor da fornalha.

— Garoto! – Ele exclamou, surpreso – Não avisei para bater à porta antes de entrar?

— O que está fazendo, senhor Helric? É uma arma mágica?

O aventureiro sorriu.

— Não, mas gostaria que fosse.

— Posso ver?

— Soren! – Galandria deixou a bandeja sobre um banco de madeira e pôs as mãos na cintura – quantas vezes já falei? Vá brincar na rua, vamos.

— Mas mãe...

A mulher o encarou com uma frieza materna irresistível. Frustrado, o menino apenas obedeceu. Gostava de passar tempo na forja; de ver as brasas queimando, de brandir uma haste de ferro como uma lança. Nunca entenderia o motivo de sua mãe ficar irritada apenas por ter aberto uma porta rápido demais.

Helric assistiu a marcha fúnebre do menino para fora do recinto.

— Você era assim quando criança?

— Eu era uma aventureira e não parava em casa. Isso te diz alguma coisa?

— Uma aventureira? – Helric franziu o cenho – jamais adivinharia.

— Ora... aquele era o meu machado.

Galandria apontou para o nicho na parede onde seu machado acumulava poeira ao lado de duas lanças sem ponta.

— Achei que fosse de seu falecido esposo.

— Não – ela riu – Trevon preferia a lança. Levou a melhor que tinha para a guerra. Não adiantou de nada.

Para Helric, o humor negro de Galandria sobre a própria viuvez era sinal de quanto ela ainda precisava entender pelo que passava. Preferiu não responder, atendo-se a comer e beber. Galandria não pareceu notar seu desconcerto.

— Não acredito que nunca conversamos sobre meu tempo como aventureira. Às vezes penso em como nos conhecemos tão pouco, apesar de você estar aqui há meses.

— Eu venho e vou, Gal. Passamos mais tempo separados do que juntos.

— Sim. O que quero dizer é que gostaria que tivesse mais tempo com você.

Helric sorveu o vinho em um longo gole. Galandria observava a lona que ele havia jogado sobre a obra inacabada.

— Você não vai nos dar mais tempo, não é?

— O que quer dizer?

— Falo de mim e de Soren. Você não nos dará mais tempo do que achar necessário, não é? Tem estado trancafiado aqui há dias. Nunca se separa desta pedra-alma. Está se preparando para alguma coisa, e eu e Soren não estamos inclusos nestes planos.

Helric engoliu seco. A astúcia de Galandria o assustava às vezes. Diante de seu silêncio ela prosseguiu, aproximando-se.

— Eu fui aventureira também e passei por essa fase. Eu também achei que podia salvar o mundo; que, de alguma forma, todo o peso das injustiças estava em minhas costas. Mas não está.

Seguiu-se um período de silêncio, quebrado por Helric após refletir sobre o que ela havia falado.

— Ninguém liga, Gal.

Pega de surpresa, ela franziu o semblante.

— O que quer dizer?

— Ninguém se importa com a Tormenta. Há uma guerra acontecendo, mas não a guerra certa. As pessoas matam umas às outras e a cada dia temos menos forças para lutar contra o que realmente importa.

Helric não queria lutar contra a Tormenta. Gostaria de entende-la ao invés de exterminá-la. Ao mesmo tempo, porém, destruí-la era um desejo igualmente instigante. Afinal, o fenômeno havia destroçado sonhos e aniquilado famílias desde o seu surgimento.

— Eu acho que finalmente entendo o que a Tormenta significa – ele prosseguiu - Ela é a morte. Nós a tratamos de forma parecida: está ali, sempre à vista, mas fingimos que não a vimos. Ela se aproxima, inexorável, então fingimos que não existe. Vivemos nossos dias, um de cada vez. Travamos nossas guerras, cuidamos de nossas famílias. Até que o dia chega e nós simplesmente aceitamos.

Galandria o observava com olhos vítreos. Assentia ao que ele dizia, mas algo parecia preso em sua garganta.

— Por que justo a Tormenta? Será que você não poderia ter se fixado em goblins ou coisas mais inofensivas?

Helric decidiu não responder. Nem mesmo ela sabia das vozes em sua cabeça. Aquilo era uma sina que deveria carregar sozinho.

Galandria bufou mas pareceu se conter. Dos olhos vítreos não desceu uma lágrima sequer.

— Quando você pretende partir?

— Em três dias.

Ela deu um passo para trás, séria.

— Não sou sua esposa ou algo parecido para tentar impedi-lo. Queria dizer que te amo, mas nem eu, nem Soren, tivemos tempo para entender se isso é verdade. Nunca pedi nada a você, mas se puder pedir, queria que ficasse. Queria que nos desse mais tempo.

Helric se aquietou. Seu silêncio às vezes a irritava. Com a raiva contida, ela o beijou e se retirou.

V – Aventura

Helric considerou cada palavra de Galandria e entendeu que, não importasse o tempo que os desse, a sombra da Tormenta e de Dois Rios o assolaria para sempre. Teria que eclipsá-las se quisesse viver. Talvez encontrasse paz uma vez que entendesse seu chamado - talvez encontrasse algo em Dois Rios que o mudasse para melhor. Por isso anunciou que manteria seus planos.

Galandria, aflita, aceitou sem pestanejar mas, no dia de sua partida, não se despediu. Despedidas traziam memórias recentes que ela gostaria de esquecer.

Soren andava de um lado para o outro. Helric estava demorando demais. Já faziam quinze minutos que ele se vestira para a viagem, e o equipamento começava a coçar em todo tipo de lugares estranhos. Não era assim que a roupagem de couro deveria funcionar. Ele já havia usado aquilo antes, quando saía em caçadas com o pai, e os incômodos só costumavam aparecer após horas. Talvez fosse o nervosismo. Ou talvez ele houvesse crescido desde a última vez em que usara o equipamento. O pensamento o fez sorrir e se aprumar. Segurou o machado com mais elegância, tentando encontrar o ponto de equilíbrio na empunhadura como sua mãe o havia ensinado dias atrás. Desta vez o machado que segurava era real.

Helric estava com tudo pronto para partir. Foi até a forja e enfim muniu-se da arma que havia criado. Embainhou-a e afivelou a bainha às costas.

A lua estava alta quando entrou no estábulo. Ao lado de Grevas, Soren se apresentava também pronto para a viagem.

— Soren?

— Eu vou com você.

Helric mal pensou a respeito. Retirou o alforje que carregava consigo e começou a afivelá-lo na sela do cavalo.

— Não.

Grevas relinchou baixinho, como se risse de forma educada. Helric o afagou.

— Eu vou sim – o menino insistiu – Audacia me protegerá. Meu destino são as aventuras.

— Para onde vou nem os deuses vão – o aventureiro tocou a pequena estátua que Soren carregava pendurada junto ao peito – Sua deusa não poderá protegê-lo. Se você nasceu para as aventuras, esta é uma péssima escolha para começar.

— Eu vou, e você não pode me impedir!

Helric bateu forte contra a parede fina da baia do estábulo e esperou. O som da madeira acordaria até mesmo os vizinhos. Soren o encarava incrédulo; sentia-se traído. Logo puderam ouvir os passos de Galandria se aproximando.

— O que está aconte... Soren, o que é isso? – ela correu até o filho – por que está vestido deste jeito?

— Eu vou sair em uma aventura!

Soren a encarava com olhos marejados. Ela podia notar o esforço que o filho fazia para não chorar. Diante daquilo Galandria foi assomada por um surto de nostalgia e também por uma ideia que julgava ser irresponsável apenas o suficiente para se tornar interessante.

—Vá para o salão.

— Mãe...

— Vá para o salão e me espere lá, agora!

Não deixou espaço para questionamentos. Soren se retirou cabisbaixo, ainda com o machado em mãos. Helric esperou que o menino estivesse longe para falar.

— Eu não sei por quanto tempo ficarei ausente. Não sei se voltarei, para dizer a verdade. Não me despedi porque achei que você...

— Cale a boca, por favor – ela o interrompeu –Eu sou mais forte do que você imagina. Agora me ouça: quero que leve Soren nesta viagem.

Helric arregalou os olhos.

— O que está falando? Esqueceu para onde vou?

— Eu os seguirei a uma distância segura. Ele não pode saber que estarei por perto, assim, vai achar que estará em uma grande aventura. Você não precisa levá-lo a nenhum lugar perigoso. Quando achar que está ficando perto demais do perigo, eu o levo de volta.

— São mais de dois meses de viagem.

— Não me importo.

O aventureiro hesitou. Lembrou-se da infância difícil na fazenda e de como saiu cedo de casa para se aventurar. Qualquer coisa soava melhor do que ficar em casa naquela época. Soren, por outro lado, tinha uma casa e uma mãe, mas perdera o pai. Helric gostava dos dois - pelos deuses, não queria admitir mas achava que os amava. Sabia, porém, que jamais entenderia a dor da perda de um pai ou de um cônjuge. Decidiu que se precisassem daquele momento para superar o que quer que fosse, ele os ajudaria.

Helric andou até o salão principal. Soren balançava as pernas no escuro, sentado em uma cadeira alta demais para ele. Tinha os olhos fixos no chão.

— Eu não converso muito – o aventureiro falou – A viagem será longa, as cavalgadas serão cansativas – conforme ele falava, um brilho se acendeu nos olhos do menino, e ele passou a encará-lo, maravilhado – Nós acordaremos cedo e dormiremos tarde.

Galandria observou a cena com um sorriso no rosto e olhos cheios de aprovação. Soren saltou da cadeira e o abraçou.

Minutos depois, Soren se despedia da mãe tomado por uma empolgação sem precedentes. Cavalgou noite adentro na garupa de Grevas, guiado por Helric na direção de sua primeira aventura. Galandria seguiu-os de uma distância razoável. Tomou o tempo apenas para selar seu cavalo, reunir suprimentos de viagem e munir-se de seu antigo machado.

Na pressa para não os perder de vista, não notou a pedra-alma que Helric havia deixado para ela sobre sua cabeceira.

Soren e Helric viajaram em silêncio, mas o menino em momento algum parecia entediado. Pelo contrário, encantava-se com cada paisagem nova sem conter os suspiros de admiração. Viajavam devagar e Galandria estava sempre por perto. Não se esforçava para esconder sua presença, mas mantinha-se oculta o suficiente para que Soren achasse que os sons que fazia eram oriundos do vento ou de um pequeno animal na floresta. Helric evitou as cidades e conhecia aquelas terras o suficiente para evitar também boa parte das áreas ameaçadas por algum tipo de monstro. Quando o menino dormia ela se aproximava. A mãe verificava se estava bem e afagava seu cabelo; para dar bons sonhos, dizia.

Com o ritmo mais lento a viagem levou quase três meses. Para evitar a fronteira com Namalkah, agora conturbada pela guerra, seguiram pelas terras pacíficas de Salistick e Nova Gondriann, então cavalgaram pelas estepes de Sambúrdia até por fim alcançarem a fronteira de Trebuck e, um dia depois, chegarem ao Forte Aeanthar, onde a Tormenta surgia no horizonte.

Inicialmente a Tormenta era apenas um aglomerado de nuvens negras na distância; como uma grande tempestade que assolava alguma cidade muito distante. Conforme avançavam, a visão constante daquelas nuvens tornava-se cada vez mais como algo não natural, com nuvens estranhamente estacionárias e ameaçadoras. Conforme avançavam, as visitas de Galandria tornavam-se mais silenciosas. Apesar de confiar no julgamento de Helric, no terceiro dia em Trebuck surgiu com outro cavalo que havia comprado em uma vila próxima; estava pronta para levar seu filho de volta.

Dois dias depois, quando a noite caiu e enquanto Soren dormia um sono pesado, Galandria saiu da mata trazendo consigo os dois cavalos e Helric anunciou:

— É aqui que nos separamos. Estamos perto demais agora.

Galandria não pareceu surpresa. Em silêncio sentou ao seu lado, despiu-se e o beijou. Fizeram amor sob o céu de Tenebra - um amor com ares de despedida.

VI – Um Segredo de Passado e Futuro

Helric cavalgava solitário agora. Estava tão próximo da Tormenta que a estrada que seguia já não era mantida ou usada por ninguém, e Grevas tinha que abrir caminho entre a grama alta que aos poucos invadia a trilha. O som da ventania e tempestade próximas abafava o que seria o agradável som do Rio dos Deuses, que Helric suspeitava correr a menos de duzentos metros dali.

Alcançou uma encruzilhada. O vento havia soprado boa parte das placas indicativas para o chão, mas uma ainda balançava, presa a um único prego. Lia-se Dois Rios e apontava para o Oeste. Uma estrada seguia naquela direção e sumia atrás de um planalto.

Venha. Você pertence a este lugar.

Entre as vozes em sua cabeça, Helric distinguiu o som de palavras sussurradas por alguém próximo dali. Notou que havia um homem sentado ao lado da placa, meio encoberto pela mata. Movia a boca como se tremesse de frio mas, sob uma inspeção mais aguçada, notou que, na verdade, apenas balbuciava palavras quase inaudíveis, ocasionalmente vociferando uma ou outra altas o suficiente para vencer o som da ventania. Foi impossível não traçar um paralelo com a história que seu pai adotivo contava sobre quando o encontrou, ainda um bebê, nos braços de um lunático.

Saltou do cavalo com o coração pesado e palpitante; o homem sequer reconheceu sua presença.

— Olá - indagou, mas o homem não respondeu.

Helric se agachou, tentando manter contato visual. Os olhos do louco fitavam o horizonte, como se o aventureiro sequer existisse. Estavam voltados na direção de Dois Rios - para o Oeste, onde a Tormenta rugia. Tinha poucos dentes, alguns fiapos de cabelo branco enfeitavam o couro cabeludo, e parecia mais magro do que um ser humano fosse capaz de ser. Estava largado, não necessariamente sentado; como se tivesse desistido ali antes do fim de uma longa peregrinação.

— Pai?

A palavra soava errada quando dirigida àquele desconhecido mas, ao seu som, o louco parou de falar. Os olhos focaram nos seus.

— Você veio, enfim.

Helric se ajoelhou, incrédulo.

— Eles te trataram bem? – o homem voltou a falar com a voz rouca. Falava com dificuldade, como se cada palavra machucasse sua garganta.

— ...Sim.

— Como te chamaram?

— ...como?

— Na fazenda. Qual nome te deram na fazenda?

— Helric.

O homem riu. Foi uma risada breve, cansada - Helric suspeitava que não havia mais forças dentro dele para uma gargalhada. Então voltou a fitar o horizonte. Passava longos momentos sem piscar, como se tivesse medo de perder alguma coisa que lá acontecia. Mesmo assim, agora mantinha um sorriso discreto no rosto.

— Não foi este o nome que te demos – ele enfim respondeu, quase inaudível.

O sorriso no rosto do homem se desfez, tornando-se uma expressão de angústia que, em seguida, tornou-se aos poucos um semblante de assombro.

— Ela me chama. Sempre me chama. Eu quero ir até lá – ele não desviava os olhos da Tormenta – Eu a abandonei, mas ela ainda está lá, em algum lugar. Sei que está. Ela clama por mim. Eu devo ir, mas não tenho coragem.

Grevas ao lado bufou, incomodado. Enquanto Helric tentava entender o que o homem dizia, o louco o segurou pelo pulso e o puxou para si: os olhos arregalados eram portais para o infinito.

— Não foi este o nome que te demos.

Ao seu toque, Helric viu tudo. Sua mente emaranhou-se e ele caiu ao chão, estremecendo. Não sentiu a queda; não via o que deveria estar vendo. Seus olhos e sua mente estavam em outro lugar, como acontecia quando acessava outras realidades ou dimensões através de seu poder; mas a dimensão na qual navegava agora era o tempo.

Uma certeza o dominou: o homem diante dele era, definitivamente, seu pai. Helric viu a si mesmo nascer em Dois Rios; não como espectador, mas como se nascesse novamente, agora consciente de tudo. Foi cegado pela primeira luz que viu na vida, então notou o rosto desesperado de seu pai. Sua mãe chorava sobre a cama, fraca demais para fugir da tempestade que se formava lá fora; uma de nuvens vermelhas e caos. Seu pai tentou levar sua mãe consigo, mas ela suplicou para que partisse sem ela.

"Não há tempo", foras suas últimas palavras.

Houve um momento de indecisão, quebrado pelos primeiros gritos de agonia lá fora. O homem que o segurava beijou sua esposa uma última vez e correu, mas era tarde demais.

Dois Rios era caos, vísceras, cinzas e demônios insetóides. A luz do sol se extinguira e na escuridão haviam horrores cuja existência dobrava os limites da realidade. Mesmo sendo apenas um bebê, Helric via além. Sem saber explicar como era capaz daquilo, tomou uma decisão consciente de levar seu pai para fora dali. A Tormenta o abraçou – ela também era, de certa forma, sua mãe. Helric havia nascido sob suas águas; sob seus olhos. Guiou seu pai por mil realidades e por caminhos que seguiam geometrias desconhecidas. Fez seu pai vislumbrar, mesmo que por um segundo, a perfeição do universo e, no momento seguinte, estavam fora de Dois Rios e na margem oposta do Rio dos Deuses.

O preço por aquela fuga foi a sanidade de seu pai. Helric viu em seus olhos a loucura tomando conta enquanto chorava pela esposa e tentava entender o que acontecera. Não tente entender, Helric clamava, mas era apenas um bebê e tudo o que poderia fazer era chorar. Não tente entender, isso só vai destruir você.

Longe dali, envolvido nos braços da mãe, Soren despertou. Galandria dormia um sono profundo. A primeira reação do menino foi a de confusão, mas logo entendeu o que acontecia.

A segunda reação de Soren foi a raiva, e esta foi o suficiente para iniciar uma série de eventos irreversíveis. Sentiu-se enganado mais uma vez; sentiu-se traído tanto por sua mãe quanto por Helric. Desvencilhou-se dos braços de Galandria e pegou seu machado. A mãe despertou com o som de seu filho atiçando o cavalo para seguir na única direção que sabia que Helric teria seguido: diretamente para a Tormenta. Queria tirar a limpo mais aquela frustração; queria provar que era um aventureiro de verdade.

Galandria deixou tudo para trás e montou no próprio cavalo, gritando em vão para que Soren parasse e a escutasse.

De volta ao tempo presente, Helric acordou ao lado do homem que era a sombra do que um dia fora seu pai. Ele se debatia e chorava.

– Ela me chama. Eu não consigo ir. Não consigo.

O aventureiro não notou que tinha lágrimas nos olhos até elas embaçarem sua visão. Segurou o pai pelos ombros para que parasse. Pai e filho se encontraram em um olhar que poderia durar gerações.

— Você deve ir agora – o louco anunciou – o menino corre na direção de sua mãe, mas é a mãe errada. Eu deveria estar ali e não ele! Mas não tenho coragem.

O homem voltou a balançar o corpo e Helric o soltou sem acreditar no que ouvia. Ergueu-se em um salto e montou em Grevas. Com um grito fez o cavalo galopar até o topo do planalto. Não era um homem religioso mas, naquele momento, rezou para todos os deuses do Panteão para que estivesse errado.

Como sempre, porém, os deuses não o ouviram.

Do topo do planalto avistou, para seu desespero, Soren, cavalgando diretamente na direção da Tormenta. Galandria o perseguia, mas não o alcançaria a tempo.

Helric soltou um urro de pura frustração. Eles não o ouviriam. Atiçou Grevas para o galope mais rápido de sua vida. O animal, apesar de odiar estar próximo da Tempestade, sequer pestanejou.

VII – Tormenta

Soren segurava as rédeas com força. A Tormenta estava muito próxima e a ventania o ensurdecia e atrapalhava a visão.

Dezenas de metros para trás, Galandria gritava em vão para que ele desse meia-volta. Sua visão periférica captou Helric, ao Leste, descendo de um planalto a pleno galope, e seu coração teceu um fio de esperança. A dura realidade, porém, a rechaçou: o aventureiro estava longe demais. A vida de Soren dependia exclusivamente dela. Passou a guiar o cavalo com apenas uma das mãos, segurando firme o machado na outra. Então, com os calcanhares e um grito, ordenou que o animal se esforçasse ainda mais.

Helric guiou Grevas com os joelhos enquanto retirava das costas a bainha e de dentro dela puxava a arma que construíra. Sua lâmina era uma confusão de ângulos difusos e formas impossíveis: era uma espada que existia em muitos lugares e em lugar algum; uma espada feita com o seu poder. Era impossível precisar sua forma e tamanho; ela oscilava em suas mãos como um ser vivo. Suplicou com fervor para que Grevas galopasse mais rápido. O cavalo imputou ainda mais energia às pernas, sentindo os músculos próximos de se rasgarem.

Soren não soube controlar o cavalo e assim que sentiu as gotas pesadas da chuva o animal relinchou, ergue-se e o lançou para fora, batendo em retirada. O menino caiu ao chão mas logo se ergueu e correu para pegar o machado que voara para longe. Com a arma em punho, varreu os arredores procurando Helric.

O ambiente próximo à Tormenta já era quase desprovido de luz graças às nuvens altas no céu, mas ali Soren se sentia sob uma noite não-natural. Estava em um lugar completamente alienígena, como em uma cidade esquecida no tempo. A chuva caía vermelha e formava poças de sangue na rua esburacada. Apesar da escuridão, uma luz avermelhada margeava a realidade, criando sombras grotescas. Outras luzes misteriosas vagavam pelo ar como cidadãos de um lugar incompreensível; um lugar onde ele era o invasor. Algo deformado se insinuou para fora de uma esquina que não era esquina. Tinha braços e pernas bruxuleantes e em números desconexos. Parecia ter mais de uma cabeça, cada uma enfeitada por dentes envoltos em saliva gotejante. A pele era dura como pedra, cheia de pontas letais, como uma armadura natural. Soren urinou nas calças e suas pernas pararam de responder aos seus comandos.

Helric adentrou a Tormenta. Sempre nutriu a esperança de que entraria ali pela primeira vez com calma e ponderação, mas agora era forçado a invadi-la a galope e com sua espada em riste. Notou a confusão de Grevas ao entrar; afinal, passaram a cavalgar na luz, na perfeição serena do entendimento total. A tentação de permanecer ali e aprender era imensa, mas Helric brandiu sua espada e com um golpe cortou o tecido da realidade, abrindo caminho para a noite tenebrosa onde avistou Soren e a criatura.

Não... o que você está fazendo, garoto? Desvie o olhar! Desvie!

A certeza de que não chegaria a tempo o dominou. Súbito, porém, Galandria surgiu da escuridão em um salto e ficou o machado na carapaça do insetóide. Com seus outros braços o lefeu a afastou e transpassou seu coração. A mulher sequer teve tempo de gritar.

Helric gritou e se ergueu sobre a sela. Toda a tormenta rugia ao redor de Soren, a criatura-inseto apenas uma de suas muitas formas encolerizadas. A Tempestade sequer tomou conhecimento da proximidade de Helric; tratava-o como um igual, e aquilo foi sua vantagem. Quando chegou o momento o aventureiro só agiu por instinto: saltou, e Grevas fincou as patas ao chão. Ergueu sua espada enquanto singrava o ar e desceu um golpe certeiro, atingindo o lefeu em seu cerne e fazendo-o em pedaços.

O que está fazendo? A voz em sua cabeça soava tranquila apesar da cólera recente. Não sabe que matar o corpo não implica no fim da existência?

— CALE-SE! – ele ordenou.

Helric foi até Soren. A criança ainda tinha os olhos arregalados, mas agora seu olhar era vazio. O aventureiro tocou-lhe o rosto, e Soren sequer piscou. O menino esticou em sua direção uma das mãos. Nela jazia uma pedra azul perfeitamente circular. Helric se esvaiu em pranto.

A chuva se intensificou e a noite tornou-se ainda mais escura, se é que aquilo era possível. O aventureiro sentiu a aproximação de uma horda daquelas criaturas; todas guiadas por uma só vontade. Mesmo com a espada em mãos, não quis mais lutar. Procurou Galandria e encontro-a sobre uma poça do próprio sangue. Tomou-a nos braços e deixou sobre seu peito a pedra-alma de Soren.

Largue-a, a voz insistia. Agora que está aqui, tem muito que aprender.

— Não – ele respondeu, destruído – apenas acabe com isto.

O inimigo se assomou ao seu redor e Helric sentiu uma inesperada paz. Pensou que, se fosse morrer, que fosse ali, justamente no lugar onde nascera. Fechou os olhos e esperou.

Mas a morte não veio.

Uma luz divina - pura como a luz do sol em um dia sem nuvens - surgiu na escuridão e desceu até aquele cenário pitoresco. Dentro dela a chuva não existia, nem vento, nem trovões. Helric abriu os olhos. Do céu desceu a mais bela mulher que já havia visto; vestia uma armadura completa e uma tiara que a conferia ares de realeza. Os cabelos brancos desciam até a cintura, onde repousava uma espada tão branca quanto o marfim. Pousou diante deles como uma pluma e, quando a luz se esvaiu, estavam sobre a grama verdejante novamente, a Tormenta apenas um construto vil na distância. A mulher, então, falou:

— Você o levou para a maior aventura que viveria – sua voz era plácida, fazendo-o se esquecer, por um momento, das tristezas em seu coração – se saísse vivo o menino buscaria em vão por experiências comparáveis sem jamais alcançá-las. Formou-o um aventureiro em uma tarde, e ele teve mais coragem do que muitos jamais teriam em toda a existência..

— Audacia? - Helric indagou, a voz falhando.

— Este é meu nome, e você é Helric, o bravo; Helric, o solitário. E agora será também Helric, meu paladino, desde que aceite a minha bênção.

A deusa estendeu uma mão aberta; um convite. Ele voltou a fitar o corpo sem vida de Galandria em seus braços.

— Não há mais pelo que lutar – falou, deixando que as lágrimas escapassem desimpedidas – que utilidade há em um paladino sem motivos para lutar?

A luz que emanava de Audacia se intensificou e os envolveu novamente por um longo tempo. Quando retrocedeu, Helric podia sentir o coração de Galandria em seus braços. A ferida em seu peito havia desaparecido. A mulher começou a tossir.

Maravilhado, Helric sorriu e a abraçou. Galandria ainda estava fraca demais para abrir os olhos e entender o que acontecia, mas estava viva e era isso que importava.

— Agora que entende de minha benevolência e poder, ajoelhe-se e faça o juramento.

Ainda estupefato, Helric deitou Galandria sobre a grama e muniu-se novamente de sua espada. Ajoelhou-se diante da deusa e abriu a boca para recitar o juramento, mas hesitou.

Entenda, a tormenta falava novamente. Observe-a e entenda.

Tomado por uma urgência repentina, Helric ergueu o semblante antes curvado em submissão. Diante dele estava uma deusa, e ela não só os salvara como também revivera Galandria. Diante dele estava um ser capaz de tantas coisas, que era impossível não se perguntar: se ela os observava o tempo inteiro e poderia ter impedido, então por que não o fez? Por que nenhum de deles fazia nada?

Foi tomado por um entendimento inédito. Não foi difícil, com os seus olhos, ver a forma real de Audacia. Era bela, sim, apesar de ser apenas um avatar da verdadeira deusa que se escondia em outra existência. Helric saltou até aquela existência, carregando consigo sua espada, ela que, agora entendia, havia sido feita para aquele momento. Encontrou Audacia - sua forma real, ainda mais bela do que a anterior - e atravessou seu corpo. A deusa, assustada, gorgolejou sangue divino e o encarou com olhos confusos.

— Eu não a servirei – ele falou em um sussurro – e nem a nenhum outro deus. Vocês são a cura tanto quanto são a doença. Agora eu entendo.

Quando voltou para sua realidade foi com alívio que notou que, mesmo enquanto a luz de Audacia se esvaía, Galandria ainda respirava.

Galandria acordou ao som dos pássaros. Sentia o corpo inteiro doer e os músculos demoravam para responder, como se tivesse dormido por dias. Imaginou ter tido um terrível pesadelo. Sentou-se e avistou Helric sentado na grama, os olhos fixos na Tormenta na distância. Procurou por Soren e, quando deitou os olhos sobre a pedra-alma em seu colo, soltou um urro de agonia que ecoou por toda a planície. Então chorou até suas lágrimas secarem.

Helric permaneceu imóvel. Galandria não soube quanto tempo passou agarrada à pedra até finalmente ter coragem de se dirigir a ele. O ódio queimava em seu peito. Carregava consigo o machado e queria matá-lo; porém, quando viu seu rosto também húmido de lágrimas e os olhos perdidos, foi inundada por sentimentos difusos.

— Ele está vindo – Helric anunciou – ele está vindo julgar meus pecados.

— Quem?

— O único que pode julgar qualquer coisa. Quando vier e eu for levado ao seu tribunal, apresentarei também meu caso. O nosso caso. E esperarei ser ouvido, apesar de não ter esperanças.

Um som poderoso se fez ouvir no céu, como se cavalos gigantescos galopassem sobre as nuvens.

— Ele se aproxima.

— O que você está falando, Helric? O que vai fazer? O que eu vou fazer agora sem... sem...

As lágrimas renasceram nos olhos de Galandria. As nuvens nos céus abriam caminho para algo divino.

— Vá. Meu julgamento começa agora.

Ela queria puxá-lo à força, mas um sentimento de desgraça iminente a inundou e, súbito, era como se diante dela não estivesse o aventureiro que amava, mas o réu de um crime terrível. Sem saber direito o motivo, Galandria se afastou, apertando a pedra-alma de Soren contra o peito. Encontrou Grevas pastando nas proximidades e o montou, cavalgando de volta para casa sem olhar para trás.

VIII

Quando voltou para casa, Galandria encontrou a pedra-alma que Helric havia deixado sobre sua cabeceira. Achou certo deixar ao seu lado a pedra-alma de Soren; seu filho pareceu achar conforto ali.

Ela esperou, mas Helric jamais retornou. Seu luto por Soren foi estranho, já que ainda sentia a presença do filho ao seu lado todos os dias ao dormir. Tentou viver um dia de cada vez. Sabia que jamais seria a mesma; não após tantas calamidades.

Estranhamente, alguns meses após o ocorrido, Galandria passou a ouvir vozes e sonhar com uma Área de Tormenta que havia acabado de nascer.

Este conto foi enviado para o concurso da editora Jambô para fazer parte da coletânea de contos "Crônicas da Tormenta". Não foi selecionado, mas eu também não gostaria de deixá-lo esquecido em algum canto. Então aqui está =)

Faça o download do conto aqui.

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Fabio Baptista
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