• Marco Aurélio Saraiva

Kelvingrove


A primeira coisa que avistei ao dobrar a esquina foram as árvores mortas pelo inverno. Fui recebido por uma lufada de vento gelado. A paisagem - os galhos secos, o muro um lar de trepadeiras, as folhas de ferro do portão escancarado - para alguns soaria lúgubre; para outros, como eu, um portal para um mundo antigo.


O portão aberto apresentou-me ao parque. Logo adiante, uma bela fonte encimada pela Dama do Lago, ladeada por anjos infantes de bronze, escudos de armas esquecidos pelo tempo e placas que contavam histórias de dois séculos atrás.


A segunda e a terceira coisas que avistei - quase ao mesmo tempo - foram os cães e as crianças. Havia um cão correndo nas águas rasas da fonte, o rabo abanando em antecipação enquanto o dono segurava um brinquedo. O animal dançava de um lado para o outro, a língua solta, incapaz de saber o significado das pedras em que pisava e da água que espalhava para todo lado. Sorri. No fundo quis acreditar que o objetivo último de quem quer que pusera ali pedra sobre pedra era justamente este: famílias a sorrir, despreocupadas e alheias às lutas e dificuldades do passado.


O vento era um açoite agora. As mãos pediram luvas e, mesmo protegidas, procuraram os bolsos do casaco. Andando pelas ruas do parque era possível avistar, no horizonte, prédios centenários - com suas torres altivas e pontas para os céus - dividindo espaço com estruturas de aço e vidro, retas, monocromáticas. Mas esta batalha era escondida pelos galhos secos que se amontoavam nas copas das árvores que esperavam pacientemente a primavera.


Havia um parque para crianças. Havia um lago. O som das crianças, dos patos, gansos e do vento sufocavam os sons do trânsito inevitável da cidade lá fora, isolando o ambiente ali ainda mais, transportando-me mais longe no tempo.


Resolvi sentar.


O banco - um dentre muitos outros em uma fila que seguia o contorno das ruas - apresentava no encosto uma placa. Nela, os dizeres de uma lápide. Ao redor, flores e palavras de saudade. Andei adiante. O próximo banco apresentava placa semelhante, com dizeres de Raymond Carver:


E mesmo assim conseguiu você O que queria desta vida? Eu consegui. E o que que você desejava?

De saber que fui amado, de sentir-me amado nesta Terra.


Uma angústia subiu à garganta. Olhei ao redor. Admirei, por um momento, aquelas pessoas que passeavam com seus cães em uma tarde comum de domingo, sem vergonha nem medo de também caminharem em meio a tanta tristeza, como que mantendo junto a si memória duras para lembrar da Tempestade mesmo durante a Calmaria.


Não tive coragem de sentar.


Ao fundo, o riso de uma criança.


#Crônica #KelvingrovePark #Glasgow

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Fabio Baptista
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