Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Arte como ferramenta de protesto

02/05/2017

 

Há poucos dias aconteceu a Geek Game Rio Festival 2017. Acabei indo ao evento de forma completamente não-planejada, e fui presenteado com uma maravilhosa palestra / conversa com os autores Luciano Cunha, Beliza Buzollo e David Llyod. O tema: "Quadrinhos como ferramenta de protesto" 

 

Eu ampliei o conceito para "Arte como ferramenta de protesto", afinal, esta funcionalidade não é limitada apenas aos quadrinhos. Romancistas, contistas, músicos, poetas, pintores, escultores, etc: todos estes têm a oportunidade de usar a sua arte como protesto, seja ele contra o governo, contra uma forma predominante de pensar, contra a segregação, ou qualquer outra ideia que lhe aprouver. No Brasil, por exemplo, durante a ditadura militar, tivemos uma parcela considerável dos nossos músicos usando suas melodias como ferramenta de protesto contra a tortura, a censura e a ditadura em geral.

 

A arte tem este aspecto diferente: é um espaço livre, onde as pessoas estão abertas a ouvir o que você tem a dizer, mesmo que as suas idéias sejam exageradas ou extremamente incomuns. Pense como o consumidor: você aceita assistir a um filme que critique o capitalismo ou o socialismo; aceita ler um livro de ficção que contenha, incluso nas suas linhas, críticas severas às diferenças sociais; mas acha estranho que uma pessoa te aborde na rua para conversar sobre o assunto, e provavelmente vai mudar de canal na televisão quando um documentário sobre o assunto vier na programação.

 

 

CENSURA

 

 

Mas a arte, assim como qualquer forma de expressão, não está imune à censura.

 

O Luciano Cunha falou um pouco sobre as censuras que o seu personagem, O Doutrinador, sofreu: de entrevistas canceladas em cima da hora até  canais que não aceitariam divulgar o seu trabalho. David Lloyd não ficou para trás: quando perguntado sobre a censura, ele confessou que um dos motivos de V de Vingança ter sido publicado foi que ele, Alan Moore e os outros co-autores tiveram liberdade quase que total dentro da Vertigo, já que, na época, a editora não tinha dinheiro para bancá-los. Eles aceitaram receber menos, mas em troca pediram maior liberdade nas suas palavras.

 

Então veio a Beliza Buzollo, famosa pelos seus quadrinhos que tratam da vida e do dia-a-dia das lésbicas, com uma proposta mais light: ela não aborda o assunto de forma agressiva. Nos seus quadrinhos, o assunto é tratado como algo rotineiro. Normalidade. Os seus quadrinhos não são sobre "aceitar o lesbianismo como uma escolha válida" ou "fim da homofobia". As histórias de "Na ponta da língua" são, pura e simplesmente, sobre o dia-a-dia de personagens lésbicas. Parece pouco, mas o poder de tratar um assunto que é tabu em muitas culturas como algo normal é imenso. E melhor: acabou que ela nem sofreu muito com a censura, talvez por não ser tão direta ou violenta assim com as suas críticas.

 

 

CONFORMIDADE

 

 

 Achei interessante o conflito de gerações presente no palco. O Luciano Cunha possuía aquele jeito energético, de quem está empolgado com o impacto merecido que a sua obra tem criado e vê que está fazendo a diferença de alguma forma. Nas suas palavras, mesmo que de forma implícita, eu identificava a vontade de continuar lutando para tornar o Brasil um país melhor.

 

Beliza era mais descontraída, apesar de igualmente empolgada. O brilho nos seus olhos denotava planos para diversos projetos no futuro, com o mesmo cunho protestante.

 

Então havia o David Lloyd.

 

A pergunta que fizeram para ele foi (não exatamente com estas palavras): "Como você se sente ao ver a famosa máscara do V se tornar um símbolo por todo o mundo, representando ideias e grupos revolucionários"?

 

A resposta dele começou com um levantar de ombros e uma expressão conformista. Ele gostava de ver as máscaras por aí; de saber que uma parte da sua obra havia sido assimilada para virar um símbolo. Mas, ao mesmo tempo, via que a máscara por si não significava nada. Usar a máscara não trazia mudança. Andar pelas ruas com ela não fazia com que as enormes diferenças sociais e todas as injustiças chegassem a um fim. Por todo o seu discurso, a ideia que ele passava era que, no fundo, não acreditava que a sua arte e a máscara do V fizessem diferença.

 

Lloyd então falou um bocado sobre as grandes corporações e como elas dominam o mundo inteiro. No final, na verdade, o sentimento que ficou foi que ele havia desistido: não havia como ganhar das grandes corporações apenas com a arte. Mas que, ao mesmo tempo, era necessário continuar a usar a arte como forma de protesto para tentar, de alguma forma, fazer com que o povo crie ciência do que acontece ao seu redor e, talvez um dia, tome alguma atitude.

 

A conversa continuou e, alguns minutos depois, enquanto o Luciano Cunha falava sobre a corrupção dos nossos políticos e em como ele gostaria que o nosso cenário político-econômico mudasse, David pediu a palavra. Em um último suspiro de esperança, aproveitando que tinha uma considerável audiência a ouvi-lo, virou-se para o público, apontou o dedo para todos nós e falou que a corrupção começa conosco. Começa com o voto de cada um de nós. Enfatizou a ideia de que nós não podemos vender o nosso voto. Não podemos deixar de votar em alguém simplesmente por achar que aquela pessoa não pode vencer. Não podemos votar em um político simplesmente por quê todos os nossos conhecidos estão votando nele.

 

Foi um pequeno discurso comovente, que ele terminou com ares de "fiz a minha parte".

 

 

INDIVIDUALIDADE

 

No final da conversa, os microfones foram liberados ao público para que fizessem algumas perguntas. A maioria das perguntas e respostas foram interessantes, mas eu queria destacar uma em especial.

 

Logo a primeira pessoa da platéia a pegar o microfone fez uma pergunta direcionada ao David Lloyd e ao Luciano Cunha, e seguia mais ou menos assim: "Tanto o V como o Doutrinador são personagens que tentam, de alguma forma, representar um povo inteiro. Vocês não acham que, ao tentar representar uma coletividade apenas com um personagem, vocês acabam criando a ideia de que basta uma pessoa iluminada para salvar o povo inteiro? Não seria interessante criar uma história onde a coletividade é mesmo representada por uma coletividade, e não por um único personagem, que concentra nele todos os bons valores do povo?"

 

O Luciano respondeu com a mesma resposta que me veio a mente: é necessário um herói para representar uma ideia. Dela você extrapola a identidade de um povo. Não consigo imaginar uma história onde o personagem seja um povo inteiro.

 

Mas a resposta do David Lloyd foi inesperada e, para mim, genial. Ele disse (e aqui uso as minhas palavras, já que não gravei em áudio as respostas do David) que V de Vingança não é sobre coletividade. Não é sobre o povo. O personagem V é justamente o oposto disso: ele representa a individualidade; aquilo que te torna único. Ele acredita que o grande problema que temos hoje são os grupos ideológicos e a necessidade que temos de fazer parte de um grupo; de seguir as massas. Como exemplo, ele usou Hitler e o seu governo nazista. É muito fácil perdermos a nossa individualidade, que é algo que temos de mais precioso. Ele acredita que a real ideia representada pelo personagem V é que temos que cultivar a nossa individualidade e respeitar a individualidade alheia acima de tudo, e que as respostas para todo o resto virão depois disso.

 

ENFIM

 

Foi uma conversa excelente, que, para mim, valeu todo o evento. Eu não conhecia o "Doutrinador" e nem "Na ponta da língua". Fiquei interessado em começar as leituras. E fiquei empolgado para ir na Geek Game Rio Festival 2018!

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