Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

A História de uma Vida

04/05/2017

 

Sávio entrou na Lojas Americanas e deixou que seus passos o guiassem até a pequena sessão de aluguel de filmes. Aquele mísero espaço com algumas prateleiras era tudo o que havia sobrado da Blockbuster, a extensa rede de locadoras a qual ele frequentara desde pequeno e que foi absorvida pela rede de lojas de departamento.

 

Escolheu a sessão de romance por costume e iniciou o longo processo de escolha do próximo longa-metragem que assistiria: pegar uma capa; ler a sinopse; ver o elenco; devolver a capa. Antes, aquilo era diversão. Agora tudo era monótono. Não havia sorriso em seu rosto. Com a fina linha desenhada no lugar da boca, os olhos pesados, procurava o filme ideal para sua tarde.

 

Não havia filme ideal.

 

Nada estava ideal há três meses, desde que ela se fora. Eles costumavam assistir filmes juntos nos fins de semana, ao lado de potes de pipoca e garrafas de H2OH. Nada substituía os minutos que passavam juntos escolhendo filmes, rindo com sinopses ou falando mal de algum título de segunda categoria que tinham alugado no passado.

 

Não havia mais risadas agora. Não havia nada. Sara tinha falecido em um acidente de carro, abandonando-o em um poço de tristeza.

 

Não viu quando pegou a capa de “O lado bom da vida”. Quando percebeu, estava olhando para a ilustração dos rostos de Jeniffer Lawrence e Bradley Cooper, cortados pela metade e com meios sorrisos, completando um ao outro. Lembrou na hora da discussão brincalhona que teve com Sara quando leu o título, um ano antes.

 

“Cara, que tradução tosca”.

 

“Deixa de ser fresco, Sávio. Não tem como traduzir ‘Silver Linings’. Traduz aí que eu quero ver”.

 

Ela sempre falava com aquele sorriso leve no rosto. Suas covinhas da bochecha o deliciavam.

 

“Qualquer coisa seria melhor que ‘o lado bom da vida’. É muito genérico. Pra mim eles tinham este título guardado em um repositório de títulos genéricos e pegaram o primeiro que apareceu quando viram que não dava para traduzir ao pé da letra”.

 

Continuaram com a discussão por alguns minutos, em meio a risadas e beijos. No fim acabaram alugando o filme. Sara confessara que fora um dos melhores romances que assistira.

 

 

Algo estava borrado na capa de DVD que segurava. Quando tentou limpar, percebeu que eram seus olhos. Suas mãos tremiam.

 

- Lembranças ruins?

 

A voz veio de outro mundo. Ele teve de se recompor para notar que havia um homem parado ao seu lado, com um filme em mãos, olhando-o com pena. Não soube o que dizer.

 

O homem trajava uma cartola marrom, tão incomum quanto seu sobretudo da mesma cor. Tinha a barba preta salpicada de fios brancos, perfeitamente cortada em cavanhaque, e o olhava de cima, tamanha sua altura. Quando viu os olhos vítreos de Sávio, tentou continuar a conversa.

 

- Ela o abandonou?

 

A voz rouca do homem era perturbadora. Sávio fungou uma vez, limpou os olhos com uma das mãos e devolveu o DVD para a prateleira.

 

- Desculpa mas eu não te conheço.

 

Virou-se então para a sessão de Blu-rays, de costas para o estranho homem de cartola, esperando que entendesse o recado. Sua cabeça estivera cheia demais nas últimas semanas; não havia espaço para conversas com estranhos randômicos, mesmo que parecessem de bem.

 

Sem olhar para trás, pegou o primeiro título que entrou ao alcance das mãos e ouviu a voz do homem ainda mais próxima.

 

- Perdoe-me se incomo...

 

- Porra!

 

Sávio deu um passo rápido para frente e virou-se para o homem que agora estava enfadonhamente próximo. Tinha sentido seu hálito quente na nuca quando o ouvira falar.

 

- Sai daqui cara. Não te conheço já falei. Meus problemas são meus problemas.

 

O homem de cartola permaneceu parado, as duas mãos segurando o filme que pretendia alugar, por um segundo. Tinha agora uma expressão de curiosidade, como se não entendesse a reação de Sávio. O segundo transformou-se em dois, e mais outro. Seu olhar petrificante começava a incomodar.

 

O senhor pareceu ler seus pensamentos. Abrindo um leve sorriso e desfazendo a pose de estátua, falou.

 

- Perdoe importunar-te. Não irá mais acontecer. Apenas desejava que soubesse que existem pessoas que entendem a dor que sentes.

 

Sávio permaneceu calado. O estranho inclinou a cabeça em uma mesura, depositando o DVD que segurava sobre a prateleira de Blu-rays com o que pareceu todo o cuidado do mundo.

 

- Eu alugaria este filme, mas acredito que ele o ajudará mais do que a mim.

 

- Pode levar cara.

 

Ele negou solenemente com um gesto com uma das mãos.

 

- Não, não.

 

Então se foi.

 

Sávio voltou a respirar normalmente. Começou a vasculhar os Blu-rays sem prestar atenção no que estava fazendo, os pensamentos voltados para o que acabara de acontecer. Soltou uma risada nervosa. Um senhor o havia avistado com lágrimas nos olhos e tentado ajudar, e ele o rechaçara como um louco.

 

“Isso mesmo, agora estou dando foras com senhores bem-intencionados. Mais um pouco e estarei nas ruas bebendo cerveja barata, como Daniel falou”.

 

Estivera decidido a mudar sua atitude mas sempre que tentava fazer algo novo a imagem de Sara vinha à tona e seu coração parava. Alguns chamavam aquilo de depressão, outros de “fase”. Tudo o que Sávio queria era que passasse.

 

Chacoalhou a cabeça e tentou afastar os pensamentos obscuros. Acabou pegando o box de Matrix para assistir os três de uma vez e dirigiu-se ao caixa. No caminho, passou pelo DVD que o homem deixara sobre a prateleira. Seus olhos foram atraídos para a capa.

 

“A história de uma vida”.

“Estrelando Robert Sandnew, Catarina Esprinova e Gisele Brandão.”

 

A capa ilustrava os rostos de um homem e duas mulheres de feições comuns, olhando para o horizonte. Era provável que fossem os atores listados como “estrelas”, apesar de Sávio nunca ter ouvido falar de nenhum deles. No verso, a sinopse.

 

“Três pessoas, três histórias e uma torrente de emoções. Delicie-se em conhecer Robert, Catarina e Gisele na sua jornada pela vida e tudo o que ela traz consigo.”

 

Apesar de nunca ter ouvido falar daquele filme, Sávio decidiu alugá-lo. Filmes independentes costumavam lhe agradar. Não se importava com efeitos especiais que custavam milhões de dólares. De qualquer forma, sua consciência pesava pela falta de bons modos com o senhor de cartola. Parte da sua mente lhe dizia que aquilo era o mínimo que ele poderia fazer para remedar seu erro.

Já era noite quando abriu a porta de casa. O celular captou o sinal wi-fi, alertando a chegada de diversas mensagens. Eram de sua mãe, amigos e familiares tanto da sua parte quanto da parte de Sara, todas com o mesmo conteúdo:

 

“Está na hora de recomeçar”.

 

“Eu sei que foi um choque, mas ela não gostaria que você ficasse desta maneira”.

 

“Nós te amamos e queremos o seu melhor”.

 

Estava aliviado por morar em outro estado, longe de sua família direta. Os parentes de Sara sentiam-se inibidos para visita-lo diretamente sem obter permissão prévia, e os amigos do trabalho permaneciam a uma distância segura. Apenas Daniel mantinha alguma participação ativa nas tentativas de reanima-lo, mas não havia mensagem alguma dele para ler.

 

Sem tirar os tênis, colocou o DVD de A História de uma Vida no aparelho e estirou-se no sofá. Tinha consigo uma batata Pringles inteira para comer e um refrigerante que ainda estava gelado. Esperou que tivesse tempo para abrir o pote de batatas e servir o refrigerante em um copo que estivera sobre a mesa a semana inteira, mas o DVD pulou diretamente para o menu principal, sem a chamada da produtora ou trailers.

 

O menu consistia em uma tela preta, sem música de fundo, com três opções em texto branco:

 

> Robert Sandnew

> Catarina Esprinova

>Gisele Brandão

 

Não soube o que fazer. Pegou a capa que largara aberta sobre a mesa de centro para ver se tinha deixado escapar alguma informação, mas não havia mais nada escrito. “Três pessoas, três histórias”, ele pensou, e escolheu o primeiro nome da lista. Estava curioso para saber como seria o filme, fato que por si só já era grande mudança em sua rotina. Suas últimas noites em casa repetiam certo padrão: assistir filmes sem prestar atenção, em sua maioria filmes que ele já havia assistido. Em algum momento, chorar ao lembrar de Sara. Não raro chorar amargamente, prometendo para si mesmo que levantaria no dia seguinte pronto para seguir em frente, apenas para repetir o processo todo de novo.

 

O filme teve início sem música introdutória: apenas o fade-in para a cena inicial. A filmagem era de altíssima qualidade, diferente dos filmes independentes que costumava assistir. Não havia trilha sonora. A primeira cena foi a filmagem do nascimento de um bebê menino, mostrando a felicidade da mãe, as lágrimas de alegria do pai, o alivio triunfal do médico. Todos falavam em inglês mas não havia legenda. Tudo parecia mais real do que um filme comum: os sons dos aparelhos hospitalares, as conversas, o médico retirando a touca e as luvas. Sávio tinha a impressão de que, se prestasse bastante atenção, poderia sentir o cheiro do hospital.

 

Um corte repentino introduziu outra cena, agora com a criança mais crescida. Seu nome, como era de se esperar, era Robert Sandnew. Sávio entendia bem o inglês e resolveu que deixaria o mistério da ausência de legendas para depois, assistindo o filme assim mesmo. As cenas eram jogadas umas após as outras, sem interlúdios ou deixas. Não havia momentos dramáticos, perseguições de carro, tiroteios, explosões, beijos apaixonantes ou traições inesperadas. Aquelas eram as cenas da vida de Robert, e Robert era uma pessoa normal.

 

Então acabou.

 

Após um fade-out da cena do último suspiro de Robert, aos 74 anos, a tela ficou preta. Não havia créditos. Música de conclusão. Nada. Apenas o derradeiro negrume.

 

Sávio ainda tentava entender o que tinha acabado de assistir quando o DVD retornou automaticamente para o menu principal, onde as três opções antes apareciam.

 

Uma quarta opção havia surgido. Ao lê-la, sentiu um calafrio subir-lhe do da espinha à sua nuca.

 

> Robert Sandnew

> Catarina Esprinova

>Gisele Brandão

> Sávio Trangielli 

 

Sentiu o coração parar. Instintivamente, olhou ao redor procurando o autor da pegadinha. O que era aquilo? Algum tipo de brincadeira do pessoal do trabalho? Leu e releu a opção dúzias de vezes, até estar convencido de que era realmente o seu nome escrito na tela da televisão.

 

Soltou uma breve risada nasal, abrindo um meio sorriso que ele não sabia se era de desconforto ou de surpresa. “Vocês me pegaram”, ele pensou. Sem mais o que fazer, apertou o botão no controle remoto e inclinou-se levemente para frente, tentando disfarçar para si mesmo a ansiedade que sentia.

 

O filme que desenrolou diante dele na TV era impossível.

 

Sávio estava consciente de sua mandíbula semiaberta e seus olhos que não piscavam. Assistiu sua vida filmada por um cinegrafista perfeito que nunca esteve realmente lá. Seu nascimento. Brincadeiras infantis. Momentos íntimos com namoradas da adolescência. Cenas dele sozinho tomando banho. Como no vídeo de Robert Sandnew, não havia como ignorar a falta de trilha sonora. Era tão perturbador quanto entender que uma pessoa o vigiara durante toda a sua vida, e então condensara seus melhores momentos em 30 minutos de produção cinematográfica.

 

Assistir ao filme era como estar fora de seu corpo; como ter uma segunda opinião sobre sua própria história. Sávio crescera em uma família pobre, que mal tinha condição de manter o barraco que seu avô construíra. Demonstrou desde o princípio uma inteligência fora do comum. Passou no vestibular para uma faculdade de renome com apenas dezesseis anos, foi descoberto por um caça-talentos e conseguiu um excelente emprego em uma empresa de pesquisas tecnológicas de ponta. Escreveu um paper que circulou o mundo. Fez palestras. Apareceu em revistas.

 

Então conheceu Sara, a nova colaboradora da equipe de pesquisa.

 

Sávio assistiu a si mesmo apaixonando-se por ela e não pôde conter as lágrimas. Nada daquilo fazia sentido. Não havia cameraman em sua vida. Como aqueles vídeos haviam parado ali?

 

O derradeiro fade-out surgiu repentinamente, no ápice de sua carreira e vida romântica, transportando-o de volta para o presente. A tela, ao invés de permanecer negra como anteriormente, exibia agora Sávio, sentado no seu sofá na sala, assistindo à própria TV.

 

Uma câmera atrás dele o filmava em tempo real.

 

Levantou um braço. A imagem na televisão fez o mesmo. Virou-se espantado para trás, afastando-se do sofá caindo ao chão. Não havia nada ali, mas ele sabia que sua imagem na televisão agora olhava diretamente para ele.

 

Olhou novamente para a TV. Lá estava ele, no chão da sala, sentado e confuso, assistindo a um filme que o assistia.

 

- Sávio?

 

A voz de sara invadiu seus ouvidos como melodia suave. Um novo calafrio percorreu todo o seu corpo, deixando seus pelos eriçados. Olhou ao redor.

 

- Quem está aí?

 

- Sou eu, ora. Que bobo. O que houve? Você parece assustado.

 

Seu coração explodia acelerado em seu peito. Sentia falta de ar. Quando olhou receoso novamente para o filme, viu Sara de pé logo à frente, olhando-o com seu sorriso debochado. Desviou o olhar da TV, na direção de onde ela realmente estaria. Um espaço vazio preenchia dolorosamente a sala.

 

No filme, Sara andou até ele. Tocou-lhe o rosto. Ele fechou os olhos, sentindo o toque da amada. Não a via, mas a sentia. Ela estava ali, agachada diante dele, olhando-o ternamente, como fizera durante tanto tempo.

 

- Já passou, meu amor. Não precisa ficar assim. Vem cá.

 

Ela puxou seu rosto para seu busto, fazendo-o suspirar quando sentiu a pele macia dos seus seios. Então chorou. Abraçou-a desesperadamente, soluçando, sem fala. Queria falar tantas coisas. Ensaiara aquele encontro durante três meses, e agora que a tinha em seus braços nada saía de sua garganta, apenas mais pranto.

 

Não se lembrava de quando caíra no sono. Dormiu no colo dela, no sofá, enquanto sentia sua mão feminina e delicada acariciar seu couro cabeludo.

Acordou com as batidas de Daniel à janela da sala.

 

- Eu consigo te ver no sofá. Acorda porra.

 

A voz do amigo tomou forma vagarosamente ao passo que despertava. Sávio acordou confuso. Olhou ao redor tentando encontrar Sara, mas a voz do amigo o puxava bruscamente para a realidade.

 

- Já vou.

 

Sua voz estava rouca. A televisão estava negra. O DVD player, desligado.

 

Sávio sentiu uma enorme vontade de apertar o Play e ver tudo de novo. Queria sentir o toque dela. Queria abraça-la, como fizera na noite anterior.

 

Teria sido um sonho?

 

- O que você tá fazendo?

 

Percebeu que estivera sentado no sofá, olhando a televisão desligada. Pela primeira vez olhou para o amigo na janela. Daniel vestia uma camiseta leve, e os fones do iPod surgiam pela gola. Um deles ainda estava pendurado em um dos ouvidos.

 

Lembrou que tinha marcado de correr com ele naquela manhã. Andou, derrotado, até a porta do apartamento, destrancando-a para que ele entrasse.

 

- Você tá péssimo cara – o amigo falou – andou chorando de novo?

 

- Bom dia pra você também.

 

Sávio subiu as escadas até o banheiro para lavar o rosto. Viu seu reflexo no espelho, os olhos vermelhos e inchados, e as manchas negras profundas sob eles. Esperou que Sara aparecesse, abraçando-o por trás em um movimento familiar, mas nada aconteceu.

 

Quando desceu as escadas mais ou menos da forma que se apresentara, Daniel franziu o cenho.

 

- Cadê a roupa de correr? Os tênis?

 

- Não tô a fim de correr hoje, Daniel.

 

Ele andou até a porta e a segurou aberta. Não queria a visita de ninguém. Queria apenas ver Sara novamente. Daniel nunca entenderia aquilo. Não tinha sido um sonho. O toque dela; o hálito fresco em suas narinas; a maciez de sua pele. Tudo tinha sido real demais.

 

Daniel ficou parado, olhando-o em silêncio, pelo que pareceu uma eternidade.

 

- Sávio... vai começar tudo de novo? Já tivemos esta conversa cara...

 

- Daniel. Só hoje. Não quero sair.

 

- Sávio...

 

- Porra, se manda. Me deixa em paz.

 

A expressão preocupada do melhor amigo transformou-se em mágoa e, em menor escala, raiva. Sem outra palavra, Daniel se retirou. Sávio fechou a porta.

 

Em algum lugar no fundo dos seus pensamentos, ele se arrependia do que acabara de fazer. Mas a vontade de reviver o que tinha sentido na noite anterior anuviava tudo. Andou a passos largos na direção do DVD player. Seu coração parou quando o aparelho acusou estar sem disco algum.

 

- Queres revê-la, não é verdade?

 

A voz do homem de cartola soava menos rouca agora. Mais profunda. Ele estava logo ali, na entrada da cozinha, com um DVD em mãos, exatamente como estivera na primeira vez que o encontrara. A descarga de adrenalina em seu corpo fez suas pupilas dilatarem. Suas mãos começaram a tremer. Sávio deu passos nervosos para trás.

 

- Que merda é essa?

 

O homem pareceu rir de sua reação previsível.

 

- O que experimentastes ontem. Sara. Tu queres novamente, não queres?

 

Queria. Queria aquilo mais do que tudo. Mesmo assim, tateou a estante da sala e, esticando os pés para alcançar o topo, muniu-se de um revólver calibre trinta e oito. Engatilhou e apontou a arma para o homem que, por sua vez, pareceu não se preocupar.

 

- Quem é você?

 

- Um cineasta. Sou quem produziu este filme. A pessoa que acompanhou toda a sua vida, desde o pré-natal até hoje, com crescente curiosidade.

 

Ele deu um passo à frente. Sávio deu um passo para trás, ameaçando puxar o gatilho. O homem deu outro passo. Gesticulava enquanto falava, com uma das mãos ainda segurando o DVD.

 

- Sou um colecionador de boas histórias.

 

- Saia da minha casa.

 

A distância entre os dois diminuía, passo ante passo.

 

- Podes tê-la para sempre, Sávio. A história dos dois, eternamente gravada, servindo de inspiração para tantos outros, por décadas sem fim. Quando tudo estiver acabado, ainda assim tu e Sara estarão lá, suas histórias para sempre unidas.

 

O peito do homem tocou o cano do revólver. Agora, de tão perto, Sávio notava a profundeza dos seus olhos. A negritude sem fim.

 

- Basta que digas sim.

 

A mão do pesquisador tremia incontrolavelmente.

 

- Sim a quê?

 

O sorriso débil que o homem ensaiou em seu rosto cinzento foi a cena mais perturbadora que Sávio já presenciara.

 

- Ao contrato. Basta aceitar ser a estrela principal deste meu empreendimento. Eu saberei quando teu coração disser sim.

 

- Saia da minha casa.

 

O sorriso se desfez em um segundo. O homem não parecia irritado, apenas profundamente decepcionado. Tratou de refazer seus passos em lentidão solene, de costas para a arma que o ameaçava. Deixou o DVD sobre a mesa da sala, então abriu a porta da frente. Antes de sair, lançou novo olhar para Sávio.

 

- É realmente simples. Tua vida daqui em diante será derrotada. O brilho que tens termina aqui. Suas pesquisas falharão por conta de tua depressão. Logo, a empresa não terá escolha senão afastar-lhe do cargo. Eventualmente tu conseguirás superar a perda, mas nunca mais será o mesmo. Tentarás perseguir seus objetivos sem sucesso algum. Acabarás esquecido em um leito, lembrado por poucos dias, então apagado para sempre da história. Pense nisso. Pense na diferença entre o agora e o futuro. Qual é a melhor cena para conferir-lhe o primoroso final?

 

O homem fechou a porta atrás de si. Sávio permaneceu imóvel, as mãos ainda segurando um revólver que apontava para a parede.

 

O DVD sobre a mesa da sala exibia agora quatro pessoas na capa. A angústia subiu-lhe a garganta quando viu o rosto de Sara ao lado dos outros três já conhecidos. Ela mirava o horizonte com um olhar tristonho, tentando segurar com a ponta dos dedos os cabelos negros esvoaçantes que caiam sobre seu rosto.

 

Sávio pôs o DVD no player e sentou no sofá, derrotado. Não se assustou ao ver o nome extra no menu: Sara Machado. Cada vez que apertava o botão para descer uma opção, seu coração pesava mais. Quando finalmente deveria apertar o botão OK, seu dedo não quis se mover. Garras invisíveis saíam do seu peito, segurando sua mão com todas as forças, impedindo-o de seguir em frente; implorando-o pra que não o fizesse. A parte sã de sua consciência continuou o trabalho. O filme da história de Sara teve início.

 

Os trinta minutos de filme foram uma mistura sublime de sentimentos. Sávio via Sara novamente, de um ângulo que nunca teve acesso. Viu suas mentiras, e sorriu ao perceber que ele também mentira sobre sua vida. Quem não o fazia? Também viu suas verdades. Viu seus sonhos, suas façanhas e seus amores. Viu a primeira vez que ela deitou seus olhos sobre ele. Viu quando os dois se enamoraram e começaram a vida juntos.

 

Então viu o carro. O acidente. Os pneus derrapando; seu corpo voando pelos ares e caindo sobre as pedras. Seus membros destorcidos em ângulos impossíveis. Sua vida escorrendo pelo seu corpo, indo embora aos poucos. Então sentiu suas emoções. Terror, ódio, loucura, saudades. Viu tudo o que ela pensara antes de morrer: seus projetos inacabados, seus pais, seus arrependimentos e seus triunfos. Então viu a si mesmo no meio da torrente de pensamentos fúnebres que atravessaram a mente da amada. Ele estivera lá, nos momentos finais de Sara, ocupando seus pensamentos; e todas as suas lembranças eram boas.

 

O filme voltou a exibir a sala de Sávio. Sara estava logo ao seu lado no sofá, observando-o. Sentava-se daquele jeito moleque, com os dois pés sobre o forro, uma perna caída e a outra servindo de apoio para os braços. Ele olhou para o lado e viu apenas o sofá mas, quando esticou as mãos, sentiu a pele suave da mulher que mais amou no mundo.

 

- Você sabe o que eu quero, não sabe?

 

Ela falava em sonetos sublimes. Ele sabia o que ela queria, e não concordava. Queria ficar com ela para sempre.

 

Sávio olhou para a televisão mais uma vez, e viu que ela fazia o mesmo. Vislumbrou seu rosto repleto de imperfeições perfeitas. Segurou suas mãos. Fechou os olhos.

Daniel já tinha batido na porta ao menos quatro vezes. Agora espiava pela janela, sem nada encontrar. Tinha o peito apertado pelo que acontecera no dia anterior e queria tentar conversar com o amigo novamente. Sabia que, naquela fase, ele não tinha muitos aliados a quem recorrer. Não queria perder Sávio para aquela maldita depressão. Não permitiria isso.

 

- Sávio? Cadê você cara?

 

Ele bateu no vidro da janela. Sávio apareceu logo em seguida, descendo as escadas, trajando roupas leves e um tênis esportivo. Daniel abriu os braços, sem entender, e andou até a porta.

 

- Cacete tu tava dormindo? Já são dez da manhã.

 

- Tava no banheiro. Um homem não pode cagar em paz?

 

Daniel olhou para o amigo e viu em seus olhos o brilho que não via a tanto tempo. Sávio sorriu. Daniel gargalhou.

 

Sávio saiu pela porta aberta e começou a fechá-la quando o amigo o segurou.

 

- Não vai pegar o DVD pra entregar na Blockbuster?

 

Sávio olhou para o DVD sobre a mesa, então terminou o movimento para fechar a porta, trancando-a.

 

- Não precisa.

 

Antes que Daniel perguntasse qualquer outra coisa, Sávio trotou até a rua.

 

 

 

Na sala, o homem de cartola pegou o DVD, lançou um longo olhar para a capa e suspirou com renovada decepção.

 

Este conto ficou em terceiro lugar no desafio "Filmes" do Entre Contos, de Novembro de 2014.

 

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