Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

João da ORCBOMS, Episódio 1

08/05/2017

 

Refrigerante de Restaurante

 

João entrou no restaurante pouco antes do meio-dia: um horário razoável, já que estava na avenida Rio Branco, centro fervilhante da cidade do Rio de Janeiro, onde, ao meio-dia, uma avalanche de trabalhadores desce dos prédios em uníssono para almoçar. Faltando apenas dez minutos para as doze horas, porém, apenas quatro mesas permaneciam ocupadas. Uma paz essencial para a execução da missão.

 

Usava um receptor de áudio devidamente escondido ao ouvido, e um minúsculo microfone preso ao corpo, próximo à gola da camisa.

 

- Estão me escutando? - ele sussurrou, projetando a boca em um bico desconcertante.

 

A voz do seu líder de equipe tática respondeu ao seu ouvido.

 

“Estamos te ouvindo, João. Pela milésima vez.” 

 

Satisfeito, o agente escolheu uma mesa e sentou. Em poucos segundos recebeu de um garçom o menu, o qual folheou direto para a parte de bebidas.

 

- Estão vendo o que estou vendo? - ele sussurrou novamente. Estava munido, também, de uma micro câmera presa aos óculos quadrados que vestia.

 

“Sim, estamos. Refrigerante a R$ 5,00. Um preço justo”

 

- Justo é o escambal. No Guanabara, ontem, o cara do microfone gritou promoção de Guaraná Antártica dois litros a quatro reais. Dois litros! Quatro reais!

 

“O que eu quis dizer” a voz no seu ouvido respondeu em tom cansado, “é que o preço está normal. Muitos restaurantes cobram isso”.

 

- O que, por si só, já é um absurdo. Acho que com isso já poderia chamar a equipe tática.

 

“Não! Caramba João, não é por isso que você está aí. A missão é outra”.

 

- Sim, concordo. Só queria deixar claro que há uma diferença entre Justo e Normal

 

Um pigarreio. João não sabia a quanto tempo o garçom estava ao seu lado. Congelado no meio da discussão, boca em formato de bico, ele olhou para cima e fitou os olhos do homem que esperava receber o seu pedido. Em um átimo, transformou a expressão em um sorriso cheio de dentes.

 

- Por enquanto só um refrigerante, por favor. Coca-cola.

 

- Sim senhor.

 

E o homem se retirou. Enquanto esperava, João tamborilava os dedos sobre a mesa.

 

- Acha mesmo que vai acontecer o que nos foi dito que iria acontecer?

 

“É para isso que estamos aqui. Temos que verificar a denúncia”.

 

- Eu sei. Só que acho muito improvável. Isso seria uma afronta… ah, lá vem ele.

 

O garçom retornou rápido à sua mesa e pôs diante dele a prova do crime. Incrédulo, João mirou o objeto diante dele. Sobre a mesa jazia uma garrafa de vidro de Coca-cola, de tempos imemoriais, com seus míseros 290ml. Sacando uma ferramenta antiquíssima, o garçom muniu-se de um abridor de garrafas e removeu a tampa do refrigerante, acompanhado do som habitual do gás finalmente liberado ao ar livre.

 

- O senhor já decidiu o que irá comer? - ele perguntou, em tom amigável.

 

Estupefato, João nãorespondeu. Fitava a garrafa diante dele, as bolhas subindo dentro do líquido preto.

 

“João! É a hora!”

 

A voz no seu ouvido fez com que acordasse do transe.

 

- VOCÊS ESTÃO DE SACANAGEM! - o agente gritou, levantando-se da mesa, afastando a cadeira com um empurrão e atraindo os olhos de todos os presentes. - Sou um agente da ORCBOMS, e o seu gerente está preso em nome do bom senso!

 

A ação foi rápida. Homens vestidos de preto invadiram o local, armados até os dentes. Em poucos segundos, o gerente do restaurante era levado para o camburão.

 

Tão satisfeito quanto indignado, João se retirou, pronto para apresentar um caso imperdível ao tribunal. Lá dentro, o garçom, ainda paralisado e sem nada entender, foi abordado pelo amigo.

 

- Mas o que diabos é ORCBOMS?

 

 

Esse foi mais um caso de sucesso de João, um agente do Órgão Controlador do Bom Senso!

Please reload

Posts Em Destaque

Review: A Roda do Tempo livro 1: O Olho do Mundo

29/11/2017

1/3
Please reload

Posts Recentes

April 29, 2019

February 3, 2019

July 6, 2017

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags