Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Prestando atenção

09/05/2017

 

 

Tive a oportunidade de colaborar com o projeto das Olimpíadas e Paralimpíadas Rio 2016, através da Microsoft, que me contratou em caráter temporário. Em fevereiro daquele ano, mudei de emprego com expectativas exageradas e um grande sorriso no rosto. Chegando lá, a verdade deu uma rasteira na ansiedade: a empolgação morreu em poucos dias e notei, com certa melancolia, que os tons de cinza permeavam boa parte dos afazeres, como qualquer outro trabalho.

 

Cabeça baixa, pensamentos a mil, a rotina instalou-se na minha alma e sentiu-se em casa. Todas as manhãs eu pegava o ônibus, andava até o trabalho, cumpria a minha função, andava até o ponto de ônibus novamente e ia para casa. Não havia tempo para mais nada.

 

Mais tarde, fui alocado no Main Press Center, ao lado do Parque Olímpico no Recreio. Novamente, a rotina apresentou-se orgulhosa, baixando os meus olhos, automatizando os meus passos e pintando tudo de cinza; detalhe após detalhe.

 

As Olimpíadas vieram e se foram. As Paralimpíadas vieram e estavam prestes a terminar.

 

Era o último dia de trabalho. Minha esposa dividia comigo a mesa do café da manhã.

 

- Então amor, como se sente no último dia de trabalho nas Olimpíadas?

 

- Empolgado. Não terei mais que viajar todos os dias para o Recreio. Não sei se ia aguentar por 
muito mais tempo.

 

- Você deveria se despedir direito.

 

- De quem?

 

- De tudo. Do lugar. Das pessoas. Do evento. Isso que você está fazendo é único. Nada parecido vai acontecer tão cedo agora. É um projeto de escala internacional, e você está no meio dele. Caramba, só você mesmo deve saber quão legal é estar lá. Tenho orgulho de você.

 

Ela falava com o tom certo de quem não tinha dúvidas do meu próprio orgulho a respeito do projeto no qual eu participava. Não sabia que tudo o que eu pensava era no trabalho que deveria ser terminado naquele dia. Tudo o que fiz foi sorrir, assentir e terminar o meu café da manhã.

 

Mesmo que ela não intencionasse nenhum impacto extra naquela conversa corriqueira matinal, passei toda a viagem até o trabalho com aquelas palavras dançando nos meus pensamentos. Algo dentro de mim gritou para que eu levantasse os olhos e prestasse atenção.

 

 

 

No primeiro metrô, embarcado na estação Cidade Nova, os rostos eram os mesmos de todos os dias: trabalhadores sonolentos, olhos semicerrados, bocas fechadas em linhas finas e sem brilho. Todos incomodados com a superlotação. O espaço melhorava após a estação Central. Aqui e ali os burburinhos em línguas estrangeiras começavam a ser ouvidos. Cada estação que o metrô avançava cuspia o cidadão a caminho do trabalho e engolia os turistas. Europeus, africanos, asiáticos e americanos do norte e do sul. Famílias, casais, grupos de amigos e exploradores solitários. Todos os tipos de línguas, olhos cheios de esperança e excitação. Roupas folgadas. Bocas sorridentes.

 

Na troca para a nova linha 4, que nos levaria até a Barra da Tijuca, a confusão inicial era logo solucionada pelos funcionários que gritavam e apontavam o caminho certo a seguir. No meio de todas aquelas cores de pele e idiomas desconhecidos, eu trazia comigo, pendurado ao pescoço, um crachá. Ao lado de tantos outros que vestiam as cores das olimpíadas e carregavam no pescoço o cartão com seu nome e foto, eu me sentia diferente, como se os olhos me seguissem de soslaio, meio admirados, meio curiosos. A atmosfera criada pelos turistas era contagiante. O metrô partiu e eu me senti a caminho das férias.

 

Na última estação, a escuridão habitual do subsolo deu lugar à luz do sol nas janelas da composição. A porta de entrada da Barra da Tijuca era o mar. Suspiros de admiração saíam involuntariamente dos lábios de cada passageiro e eu percebi, nas memórias que guardava, que ouvia estes suspiros todos os dias, mas nunca havia levantado o rosto para apreciar a paisagem. Toquei o vidro e observei. Rápido demais, o metrô entrou na estação e o sol foi bloqueado por concreto.

 

Seguimos para o BRT. Os funcionários, sempre sorridentes e cordiais, novamente indicavam o caminho. A viagem de ônibus era alegre. Como eu não havia captado aquilo antes? Todos aqueles dias com os olhos e a mente focados em um livro ou no celular, sem perceber a admiração e alegria dos que iam aos jogos. Tanta variedade de pessoas! 

 

O ônibus virou uma esquina e estávamos na reta da Abelardo Bueno onde estava o Parque Olímpico. A arena de natação Maria Lenk se apresentava altiva, um gigante a olhar das nuvens o ônibus que corria do outro lado da avenida. Olhos e dedos apontavam para o parque. Estádio após estádio saudava a nossa chegada. As pessoas que andavam pela ampla calçada estavam todas lá com as mesmas intenções do ônibus inteiro: aproveitar aquele momento único; presenciar de perto a superação dos limites do corpo humano; diverti-se e sorrir.

 

O ônibus chegou e abriu as portas, engrossando a multidão lá fora. Em uníssono, centenas de pessoas subiam as escadas ou rampas na direção dos jogos. A ponte que cruzava a avenida privilegiava o transeunte com a vista de cima de boa parte do Parque Olímpico. Lá em baixo os torcedores, funcionários e policiais perambulavam pelo palco dos jogos. O sol nos recebia com um bom dia sorridente, ao lado dos guias que cantavam nos auto-falantes, indicando o caminho certo a seguir.

 

O dia só estava começando.

 

Dentro do Main Press Center, os repórteres preparavam-se para a retirada. A gigantesca sala com centenas de mesas, antes todas apinhadas de gente durante os jogos Olímpicos, agora descansava quase vazia, com apenas algumas mesas ocupadas por profissionais da mídia dos mais variados países. No caminho até a minha mesa, perdi a conta de quantos idiomas diferentes ouvi.

 

Com o início do trabalho a rotina sorriu, pronta para tomar conta de mim novamente. Mas, antes tarde do que nunca, ela não tinha mais vez ali. Cumpri o meu dever e, na parte da tarde, faltando três horas para eu ir embora - três horas para me despedir do maior projeto que participei na minha vida - levantei-me e desci as escadas. Sem medo, fui até os recantos que não tinha visitado. Virei uma esquina e mais outra, descobri o corredor que levava os funcionários até o parque olímpico e andei por ele. Em poucos minutos, eu estava lá, no meio do parque e de centenas de turistas, cercado por estádios, línguas e rostos, no meio de uma das maiores empreitadas da qual pude fazer parte.

 

Andei até não poder mais. Prestei atenção em cada detalhe; cada pessoa; cada sorriso. Ajudei um casal estrangeiro a tirar uma foto. Olhei com curiosidade para tudo o que não tinha notado antes. Na minha cabeça, dizia adeus a tudo e a todos ali. Olhei tudo de cima, então desci e olhei de baixo também. Sorri com a certeza da saudade e a felicidade no peito, e por ter ouvido o conselho da minha esposa. Ali, parado no meio do Parque Olímpico, senti-me uma formiga. Mas, como toda formiga, tive a certeza de que fiz a minha parte. 

 

Os jogos chegavam ao fim e, ao meu redor, pude ouvir o pensamento de todas as pessoas, cada um em seu idioma:

 

Tudo havia sido perfeito.

 

 

 

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