Fabio Baptista
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Fabio Baptista

Review: A Batalha do Apocalipse, por Eduardo Spohr

16/05/2017

 

Eu sei, eu sei. Um livro que já passou da época de reviews. O problema é que eu só fui lê-lo este mês e foi uma experiência incrível. Eu tinha, que de alguma forma, extravasar isto, e nada melhor do que o meu blog para tal =)

 

Eduardo Spohr me surpreendeu, com a sua escrita rebuscada e objetiva, misturando descrições fantásticas, construções frasais incríveis e objetividade na narrativa. Ele perde pouco tempo ambientando o leitor (exceto algumas partes específicas, citadas na sessão de spoilers), aproveitando cada linha do seu livro para fazer a trama progredir. A ambientação vem junto com a trama, o que é algo difícil de encontrar. Além disso, considero a ambientação deste livro um tanto complexa, já que a história se passa em muitos cenários completamente diferentes uns dos outros, o que exige, tanto do escritor como do leitor, um girar de chave frequente: "Agora estou no futuro", "Agora estou no passado", "Agora estou no presente". Mas Spohr faz isso com maestria, tornando as interseções fluidas e atrativas.

 

Aliado à sua técnica única, ele também tem uma imaginação e tanto. O mundo criado aqui é singular, diferente de tudo o que eu tinha visto. As explicações são sempre satisfatórias, e muitas fazem a sua cabeça explodir. O trabalho de pesquisa dele foi extenso, narrando, por vezes, detalhes que eu nunca havia ouvido falar sobre as épocas mais remotas da nossa história. Isso faz com que a leitura deste livro não estimule apenas a sua imaginação: ela adiciona muito à sua cultura, e ainda estimula a curiosidade para saber um pouco mais sobre cada época narrada nas linhas do livro.

 

Acima de tudo, porém, Spohr prova que existem excelentes escritores brasileiros de ficção e fantasia. Eu me diverti muito lendo este livro, mais até mesmo do que muitos best-sellers internacionais conseguiram me divertir.

 

Minha nota é um sólido oito: um livro muito bem escrito, com uma trama muito original, personagens bem trabalhados e muitas soluções "fora da caixa", que mantém o leitor sempre interessado e querendo saber mais. Algumas peculiaridades da sua técnica, porém, deixam a desejar, e alguns pontos da narrativa são um tanto óbvios e incômodos, eis o motivo da remoção de duas penas da minha notaMais detalhes a seguir.

 

  Nota 8/10

 

 

 

Destrinchando "A Batalha do Apocalipse" (SPOILER ALERT)

 

O livro é muito bem escrito, com roteiro digno de filme de Hollywood. Aliás, a trama daria um excelente filme, que eu faria questão de assistir nos cinemas.

 

Técnica

 

Eduardo Spohr escreve muito bem. Algo na sua técnica, porém, às vezes me incomodava bastante.

 

Em alguns momentos da trama, ele optou por lançar mão de alguns parágrafos puramente informativos, que fogem da trama do livro, fazendo uma "pequena viagem para o passado", para só então retornar à linha principal. São trechos do tipo: "Ablon subiu a ponte Rio-Niterói. A ponte Rio-Niterói, cujo nome oficial é Ponte Presidente Costa e Silva,  teve o início da sua construção em 1969 e término em 1974. Ela possui 13 quilômetros de extensão. Na época, o país estava sob o regime militar..." (exemplo criado por mim. Não é um trecho real do livro).

 

Estes trechos, muitas vezes, pareciam ser apenas um "pedaço de informação" que ele havia adquirido durante as suas pesquisas: interessantes, mas que fugiam um pouco da trama e quebravam um tanto o ritmo. Felizmente, ele soube usar bem o recurso, e não pôs parágrafos assim em momentos críticos da história.

 

Outra peculiaridade da sua técnica é que, por vezes, ele parece insultar a inteligência do seu leitor. Muitas vezes ele perde tempo explicando o óbvio, não deixando que o leitor sinta aquela sensação de "Ahh, saquei a referência" ou "Opa, acho que entendi o que ele quis dizer aqui". Como escritor, acho importante quando a trama do livro foge das páginas do mesmo, fazendo o leitor folhear o livro para encontrar um trecho específico e descobrir que ele estava certo quanto a alguma teoria louca que ele mesmo havia criado, ou fazendo com que o mesmo leitor procure referências na internet. Spohr, por outro lado, sempre entrega as respostas de bandeja, nunca deixando nada no ar. Um exemplo perfeito disso é quando Ablon reencontra Nimrod, o antigo rei da Babilônia. Fica óbvio que era Nimrod durante a sua narrativa perfeita, mas Eduardo vai um pouco além e adiciona aquela linha final, confirmando que era mesmo o Rei Nimrod, meio que falando, nas entrelinhas: "Estou deixando isso claro, caso você não tenha entendido".

 

 

Trama

 

Correndo o risco de me repetir: a trama é, realmente, incrível. Spohr tem umas sacadas sensacionais. Toda a viagem de Ablon através das eras é, por si só, algo único e muito bem trabalhado. Os personagens são todos explorados conforme o seu peso no enredo: Ablon é destrinchado em detalhes, e temos também uma lapidação muito bem feita de Shamira, para então entrarmos nos personagens secundários, como Aziel, Sieme e Orion, e os antagônicos, como Miguel, Apollyon e Lúcifer. Todos eles têm seu momento de brilho, e todos tiveram o devido espaço na trama. Alguns são memoráveis, como Orion (que final incrível! Que personagem maravilhoso!) e Gabriel, mesmo que tenham aparecido em pouquíssimas linhas.

 

Tudo sobre as castas dos anjos é muito bem pensado e cheio de criatividade. Dá vontade, realmente, de narrar um RPG no mundo do livro. 

 

As conclusões do enredo são, em sua maioria, fenomenais. A grande revelação sobre deus explodiu a minha cabeça. A conclusão de Gabriel é reveladora e ímpar. Baturiel e Varna são também personagens absurdamente bem pensados, e com conclusões épicas.

 

As conclusões dos vilões também são muito bem trabalhadas. O final de Miguel, assim como as revelações das suas motivações, é incrível. Lúcifer tem um final decente, apesar de me parecer um tanto justo demais, quase como uma espécie de fanservice, para o meu gosto.

 

Apesar do final brilhante e épico, existem muitos clichês espalhados em toda a trama. O clichê é algo inevitável: sempre teremos alguma referência, sempre estaremos sobre os ombros dos gigantes do passado. Mas alguns são pesados demais. A identidade do Anjo Negro, por exemplo, que foi trabalhada como um grande mistério o livro inteiro, foi fácil de deduzir já metade do livro. Era um tanto óbvio, para dizer a verdade.

 

Diante de tantos finais épicos, a conclusão do personagem principal, Ablon, me pareceu fraca. Ele tem duas conclusões, na verdade: primeiro, ao lutar contra Miguel, Spohr faz valer a famosa Jornada do Herói, onde Ablon morre e volta a viver. Eu vi que isso aconteceria lá no início do livro, quando Shamira conjurou a runa da ressurreição nele, mas acabou que ele não precisou usar. Ou seja: sua morte foi esperada, e sua ressurreição ainda mais previsível. Além disso, sua volta na forma de super sayajin (rs rs), com a ajuda dos seus amigos mortos, foi um clichê monstruoso,  apesar de um tanto justo para o personagem.

 

A segunda conclusão de Ablon, contra Apollyon, seu real algoz, foi mais rebuscada. A intervenção de Shamira foi prevista também com muita antecedência (desde que ele pegara a pena de Apollyon), mas a intervenção de Orion foi incrível e bastante inesperada. Porém, toda a trama com a Roda do Tempo e o fato dele voltar no tempo, desfazendo tudo o que aconteceu, foi bem anticlímax para mim, apesar de ser cheia de metáforas sobre o livre-arbítrio e outros assuntos mais. A sacada da Runa da Mente, porém, foi também genial e um tanto inesperada.

 

 

Insights

 

  • No fundo, o tema principal do livro, para mim, é o amor. Encare isso como você quiser. Eu gostei. Spohr trata o amor como um sentimento diferente: a emanação de deus na alma da sua criação, aquilo que torna humano mesmo os anjos, desprovidos de livre arbítrio. O livro todo é uma grande história sobre o amor entre Ablon e Shamira: o amor entre anjos e humanos, entre o divido e o carnal.

  • O cuidado com o qual Spohr pintou Lúcifer foi muito interessante: ele é um anjo covarde, inteligente, político e um tanto narcisista. Não é um guerreiro e, na verdade, abomina as armas e a batalha. Ele se aproveita da fragilidade intelectual dos seus inimigos, ao invés de travar batalhas contra eles. Foi interessante ver Lúcifer pintado assim. Um trabalho e tanto com o personagem!

  • O "Livro da Vida", deixado por deus com Miguel, e que possui toda a história do universo escrita nas suas páginas, do início ao fim, é um bom paralelo com a própria bíblia. Cada um que tem a oportunidade de lê-lo o interpreta como deseja, trazendo para o primeiro plano os seus desejos mais fortes, e colocando em segundo plano aquilo que não o interessa. O Livro da Vida é, na verdade, a parte mais simbólica e metafórica de toda a leitura. O próprio fato de Ablon jogá-lo no mar, no final da última página, pode ser interpretado de diversas maneiras. Para mim, foi a forma de Spohr nos dizer que "não é nenhum livro que ditará o nosso destino, mas sim nós mesmos". Foi o trecho que me fez parar e pensar durante minutos a fio, após fechar o livro.

  • A linha do tempo, presente na versão especial do livro foi muito importante para mim. A explicação de como a magia vem com a fineza do Tecido da Realidade, e que o mesmo engrossa conforme os seres humanos perdem a sua fé, foi um excelente insight do Spohr. O afastamento da humanidade do místico acaba sendo uma profecia auto-realizada: quanto mais nós deixamos de acreditar na magia, menos ela se manifesta.

 

Conclusão

 

O livro é um amálgama de clichês e originalidade. Trechos muito bem pensados e trechos que poderiam não existir. O saldo, porém, é muito positivo. O livro diverte do início ao fim, seja pelas viagens de Ablon através das eras, seja pelas batalhas épicas a la Cavaleiros do Zodíaco. Aconselho a leitura a qualquer um!

 

 

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