Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Goddland - Capítulo 2

22/05/2017

 

Saiu o segundo capítulo desta história louca que ando escrevendo, criada a diversas mãos, a saber, as minhas e as de todos os integrantes do meu grupo de RPG.

 

Este capítulo deveria ter saído semana passada, mas me empolguei na escrita e ele acabou saindo um pouco maior do que deveria.

 

Você vai encontrar abaixo um trecho do capítulo. O texto na íntegra você pode encontrar no meu Wattpad, junto com os outros capítulos da história.

 

Arautos de maus presságios

 

Em uma das dezenas de praças espalhadas pela gloriosa Skyreach, um arauto desenrolou um curto pergaminho e, com sua poderosa voz, fez-se ouvir. A multidão ao redor interrompeu seus afazeres para dar atenção às palavras do homem de uniforme Real:

 

- A todos os que puderem ouvir! Este é um anúncio proveniente do próprio príncipe Tennas Skyreacher, primeiro na linha de sucessão. O bom rei Jonas acaba de falecer em seu leito, devido a idade avançada - como se ouvissem o anúncio, os sinos de todos os templos da metrópole iniciaram suas badaladas, um após o outro. O arauto prosseguiu - Espalhem a palavra! Todo o povo deve estar de luto. São dias de trevas os que vivemos, mas o fardo da realeza deve ser passado adiante. Os dias do Bom Rei Jonas terminam, e viva a Tennas Skyreacher, o novo rei.

 

Uma onda de burburinhos e expressões de espanto saiu das bocas das pessoas ao redor. Aqueles mais distantes perguntavam aos mais próximos, confusos, o que estava sendo anunciado. Uma vez que também ouviam a sentença, eram assaltados pelo mesmo espanto e, assim, a palavra era repassada, até que todos a ouvissem.

 

O homem de trajes reais, ladeado por dois soldados de armadura completa, enrolou o pergaminho e prosseguiu o discurso.

 

- Amanhã, ao nascer do sol, o corpo do Bom Rei será carregado à Catedral de Jhyanna pela Via Larga, onde será dedicado à Deusa, então levado para a Tumba dos Reis, lugar onde descansará eternamente. Todo o povo está convidado a assistir. Skyreach passará por sete dias de luto, após o qual o príncipe Tennas será coroado novo rei, em cerimônia fechada. O povo, porém, receberá entretenimento e um farto banquete, para festejar o novo reino e afastar os maus pensamentos.

 

Na praça, atrás da multidão, um homem, sentado em um dos bancos de madeira, ouvia o discurso com atenção. Tinha o porte e os ares de um guerreiro experiente, e era mais alto do que a maioria dos homens. Com um semblante sério, levou os dedos à barba bem feita por puro costume, acariciando-a em movimentos mecânicos, perdido em ponderações.

 

- Por Jhyanna, Zeke. O rei Jonas está morto.

 

Era a voz de Tristana, sua esposa, que sentou ao seu lado no banco, com a filha no colo. Seu rosto, de linhas suaves e tez alva, tinha uma expressão preocupada, seus olhos buscando alento em meio as mechas de cabelo negro. Zeke envolveu esposa e filha com um abraço silencioso, que durou um bom tempo. Então afastou-se e fitou ambas com um meio sorriso no rosto.

 

- Todo homem morre. Jonas viveu uma boa vida. Quando atingimos uma certa idade, a morte pode nos abordar a qualquer momento - tocou, com suas mãos embrutecidas, o rosto delicado da filha, de apenas seis anos, o que a fez sorrir - Eu também irei embora algum dia, e espero ter vivido tão bem quanto ele. Espero que, no final, tenha feito o certo para com vocês.

 

O sonoro tapa de Tristana em seu braço veio como uma surpresa.

 

- Pare de falar destas coisas. Já basta uma tragédia. Quer atrair mais?

 

Ele levantou o canto da boca em um ensaio de sorriso, e beijou a mulher para selar o assunto. Felicia, a sua filha, interrompeu o beijo ao forçar suas mãozinhas entre os lábios dos dois.

 

- Paaarem com esta porcaria. - ela exigiu, como de praxe. O casal riu, mas de forma discreta, respeitando o clima funesto que havia sido instalado no lugar.

 

Não demorou para que o guerreiro percebesse que, ao redor, alguns olhares e dedos já apontavam na sua direção. Levantou-se de imediato, encorajando ambas a fazerem o mesmo.

 

- Vamos para casa. Está na hora.

 

- Mas papai, eu quero brincar mais.

 

Zeke envolveu a pequenina filha com o seu braço, puxando-a do colo da mãe e levantando-a na altura do seu rosto.

 

- Não é mais hora de brincar, Felicia. Amanhã poderemos voltar aqui.

 

Tristana, também ciente dos olhares que se dirigiam a eles, tratou de recolher os seus pertences o mais rápido que pôde. Colocou de qualquer maneira, dentro da bolsa de couro que carregava, onde também mantinha algumas moedas, as estatuetas de ferro e madeira que entretinham a filha. Sinalizou ao marido que estava pronta para partir, mas, assim que deram os primeiros passos, foram abordados por um homem que se aproximava em ritmo acelerado.

 

- Zeke! Você é Zeke, não é mesmo? Um dos Matadores do Dragão.

 

As pessoas mais próximas, que ainda conversavam sobre a notícia recém-recebida, voltaram-se para o casal e sua filha. Os olhos fitavam Zeke, com todo o seu porte e estatura, e o reconheciam de imediato como um dos lendários heróis, apesar de, na ocasião, trajar roupas simples e casuais.

 

- Sim, sou eu - ele respondeu, tentando manter o ritmo das passadas. Porém as pessoas, em poucos segundos, reuniram-se de forma compacta, cercando-os e tornando a caminhada impossível. Inundavam-nos com perguntas e constatações, cada um buscando consolo na figura heroica; alguma resposta para aquele tempo de desgraça.

 

"Teve a oportunidade de conhecer o príncipe Tennas. Sabe se reinará como o pai?"

 

"Conheces pessoalmente a Sumo-sacerdotisa. Sabe se teremos, em breve, a cura para o Pranto Vermelho?"

 

"És um herói! Deveria ser você lá, a receber a nova coroa. Ou, ao menos, um de vocês!"

 

- Afastem-se! - ele gritou. Seu brado foi tão vigoroso que até Felicia arregalou os olhos em espanto. O povo, assustado, obedeceu. - Não sou político, nem profeta. Sou um guerreiro. Vivo pela espada, e é só ela que conheço. Muitos de vocês me conhecem pessoalmente. Mas que droga Herbert - ele apontou na direção de um homem gordo, companheiro frequente nas bebidas - e Calian - olhou nos olhos de outro homem de semblante jovial, que também fazia parte daquela massa de gente - Vocês e outros sabem que nada tenho que ver com governos ou curas. Parem de me procurar em busca de respostas.

 

Sentiu vontade de continuar a caminhada e sumir daquele lugar. Mas o povo mantinha-se ao seu redor, olhando-o em desalento. Os sentimentos no peito de Zeke eram conflitantes: o asco pela fraqueza daquela gente, e a compaixão ao notar que precisavam de um líder para ditar a direção das suas vidas.

 

Com um suspiro, recompondo-se, o herói discursou.

 

- O príncipe Tennas foi treinado por seu pai, e este era Jonas, o Bom. Ele governará bem, tenho certeza disso.

 

Silêncio. Ciente de que sua habilidade com as palavras era limitada, tocou o ombro da esposa e seguiu caminho. O povo adiante abriu passagem sem pestanejar. O guerreiro sentiu-se satisfeito ao ver, por alguns instantes, algumas das expressões perdidas transformarem-se, lentamente, em semblantes esperançosos. Era o máximo que podia fazer por aquelas almas.

 

O caminho até a sua casa foi marcado por transeuntes preocupados e cabisbaixos. Alguns já perambulavam em vestes negras. Skyreach entrava em luto.

 

Chegaram por fim em um dos bairros residenciais, onde a sua casa destoava pouco das outras simples moradas vizinhas. Ao entrarem, Zeke procurou uma vestimenta mais discreta, com um capuz que lhe cobrisse boa parte do rosto, para sair novamente às ruas.

 

- Para onde vai? - Tristana soltou a pergunta inevitável, ao observá-lo munir-se da nova indumentária.

 

- Melissa deve estar muito ocupada com todo este alarde ao redor do Bom Rei, mas Dorian estará disponível. Preciso saber o que ele pensa sobre o que acaba de ser anunciado, e quais decisões ele acha que serão tomadas pelo novo rei.

 

- "Não sou político" - Tristana imitou a voz robusta do marido, jocosa, recostando o corpo feminino ao seu, alcançando sua gola com as mãos e ajeitando-a. - Fala uma coisa e age como o oposto.

 

Zeke tomou o rosto da amada entre as mãos, fitando os seus olhos.

 

- Se minha espada puder ser de alguma serventia, então que assim seja. Estamos parados faz muito tempo, fingindo que o mundo lá fora não está prestes a se desfazer. O Bom Rei pode ter sido bom durante toda a sua vida, mas estes últimos anos de isolamento não ajudaram ninguém. Esta pode ser a hora da mudança, e eu preciso saber que posição meus amigos tomarão.

 

- Bobo - ela beijou os seus lábios - Eu estava apenas brincando. Só queria que você tomasse cuidado com o que conversa com os seus amigos. São todos heróis, de uma forma ou de outra, e alguns, como esse Dorian, me parecem sedentos por fama e aventura. Não quero ter que tomar conta de Felicia sozinha, levando-a para ver a estátua heroica do pai, vivendo apenas de lembranças.

 

- Olha só quem está falando de tragédias agora - ele sorriu, abrindo a porta de casa - fique tranquila. Não é como se eu estivesse partindo para enfrentar um dragão.

 

E saiu, capuz encobrindo o rosto, na direção da taverna mais recente e famosa de Skyreach.

 

Please reload

Posts Em Destaque

Review: A Roda do Tempo livro 1: O Olho do Mundo

29/11/2017

1/3
Please reload

Posts Recentes

April 29, 2019

February 3, 2019

July 6, 2017

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags