Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Maria Fumaça

23/05/2017

 

 

Era um cemitério no meio de lugar nenhum. Tinha o aspecto de qualquer cemitério comum: deserto, silencioso e sombrio. Arthur podia até mesmo sentir ali o ar de tristeza que costuma cercar as lápides enfileiradas, demarcando o local de descanso final de tantas pessoas.

 

No entanto, aquele cemitério era de trens.

 

Não existiam lápides, mas as máquinas enormes formavam um real labirinto. Click. Uma foto. Click click. Mais duas fotos em sequência de um trem rosado e enferrujado que datava de 1892. Fora vermelho em algum momento da sua vida movida a carvão, mas agora o tempo sorvia aos poucos sua cor.

 

Arthur estava fascinado. Não sabia que lugares como aquele existiam. Estava cercado de máquinas anciãs, cactos e quilômetros desérticos de terra. As fotos eram lindas, ainda mais com o contraste do sol, que emitia sua luz na terra e a tornava quase dourada. Click. Uma foto de um trem que, com o uso da imaginação, ele poderia jurar que tinha um olhar tristonho, como se sentisse falta da época que soltava fumaça para os ares e carregava passageiros para todos os lados do estado. Click. Aquele álbum entraria para a história da sua carreira.

 

Mas ele não estava ali apenas para criar um álbum de fotos. Gostava de lugares assim; de viajar sozinho. Quando o zelador do albergue em que ele se hospedou citou o cemitério, seus pelos eriçaram. Imaginou um local centenário, contendo relíquias de uma época já esquecida ou ignorada pela maioria. Não pensou duas vezes em pedir um mapa. Agora que estava lá, não se arrependia. Ao passo que andava pelos trens abandonados e esquecidos, tentava imaginar qual era a história daquelas máquinas colossais. Quantas pessoas carregaram? Quantos assuntos urgentes ajudaram a resolver? Quantos casais foram formados em suas longas viagens, e quantas pessoas morreram ao construir seus trilhos?

 

No final, ele concluiu, cemitérios eram sobre lembranças, e não sobre mortos. As pessoas não vão ao cemitério para ver seus falecidos, mas sim para recuperar as lembranças das vidas daqueles que amaram. Naquele momento, através da lente de sua câmera, Arthur tentava imaginar como teria sido a vida de um vagão carcomido e tomado por fungos. Sorriu ao imaginar uma cena de faroeste, onde o mocinho alcançava o vagão montando um garanhão veloz e pulava para dentro de forma heroica. Então, algo se mexeu por detrás de um cacto, e seu sorriso se desfez. Um urubu voou acima de sua cabeça. Estivera empoleirado sobre um dos vagões o tempo inteiro, ele notou. O bater súbito de asas o fez dar um passo rápido para trás; um susto. Pisou em uma pedra e cambaleou até bater de costas em outro vagão. O som do metal oco da velha locomotiva acordou dezenas de outras aves, que levantaram voo em uníssono. Arthur olhou para cima com o coração disparado e a boca aberta, mas só quando o som dos urubus ficou distante no horizonte ele conseguiu rir da situação. Olhou novamente para o cacto. Não havia nada lá.

 

Já tinha ficado naquele cemitério tempo demais, ele pensou. Todo o lugar não deixava de ter um clima decadente e macabro. O sol, que marchava inexorável no céu, começava a projetar sombras cada vez mais longas no chão árido, tornando a atmosfera ainda mais sombria. Arthur tratou de tirar suas últimas fotos, então guardou a câmera na mochila. Estava na hora de partir.

 

Foi quando percebeu que não sabia onde estava.

 

Eram tantas máquinas enferrujadas, descoradas com o passar dos anos, que pareciam todas iguais. Tinha entrado em um ônibus na pequena cidade de Tucunhas até a beirada da estrada de terra que levava ao cemitério, então pegara uma carona com um fazendeiro em sua carroça até ali.

 

- É só voltar pra essa estrada e andar até o final que te pego e te levo de volta, ele dissera. Mas não sabia mais onde estava a estrada.

 

Enquanto procurava seu caminho de volta, virou uma esquina entre um vagão e outro e saiu em um campo aberto. O deserto de terra se estendia até onde a vista permitia enxergar. O vento o pegou de surpresa, jogando areia em seu rosto. Não avistou a estrada por onde viera. Mas avistou trilhos de trem, que estavam a não mais de dez metros dali. Confuso, o fotógrafo andou até lá. Eram trilhos novos. Pareciam ter sido colocados ali havia poucos meses e mal tinham marcas de uso. Vinham de lugar nenhum e iam até lugar algum, subindo até onde o horizonte se encontrava com o céu.

 

Um resmungo de alguém atrás dele fez com que Arthur tomasse o segundo susto do dia. Puxou a respiração com força e olhou para trás rapidamente, dando um passo para o lado por reflexo e quase tropeçando no trilho. Logo ali, de onde ele tinha saído, andava um senhor de muita idade, carregando uma grande bolsa com restos de ferro velho. Trajava um avental jeans com suspensórios que ele achava que não eram usados por ninguém no planeta havia décadas.

 

Abismado, o curioso viajante ficou sem fala. Não tinha visto aquele senhor ali, apesar de ter passeado pelo cemitério durante mais de três horas. O catador de ferro velho, por sua vez, acabou o avistando entre uma visita a um vagão e outra.

 

- Argh. Tarde.

 

- Tarde... - Arthur respondeu, sem jeito. Pensava que deveria ser ilegal catar ferro velho de um cemitério turístico de trens.

 

- Tá perdido, moço?

 

- N... não. Estava apenas tirando umas fotos.

 

- Argh. Fotos. Vocês jovens que vêm aqui tirar fotos.

 

Uma nova rajada de vento forte deu o ponto final da conversa, e o velho voltou a andar para o outro vagão. Algo naquele senhor não o agradava, mas o fotógrafo não sabia dizer o que era. Não demorou três segundos para que ele resmungasse novamente, enquanto Arthur ainda o observava incrédulo. 

 

- Isso aqui é um ferro-velho que as pessoas cismam de chamar de museu. Ou cemitério, que seja. Daí vem um monte de moleques que nem você pra tirar foto. Sempre foto. - Colocou algumas barras enferrujadas de aço na bolsa antes de continuar - Tanto lugar bom pra ver, e vocês vêm ver a droga de um amontoado de lixo velho e tirar a paz.

 

- Você mora aqui, senhor?

 

- Sim e não, criança. Longa história. - O velho falava de costas e gesticulava com uma das mãos, a livre, como se desdenhasse cada palavra que dirigia a Arthur. O jovem fotógrafo não conseguiu deixar de sorrir. Era apenas um senhor cansado que queria cumprir sua rotina. Ajeitou a mochila com a máquina fotográfica nas costas e finalmente pareceu relaxar. Então se lembrou do trilho que estava ao seu lado.

 

 - Estes trilhos aqui são recentes?

 

 - Aí depende. Recente é um conceito que muda se você for novo ou velho.

 

 Arthur riu.

 

 - Mas tem trem que passa aqui ainda?

 

 - Ah tem. Ele vem duas vezes por dia. Às seis da manhã, e às seis da tarde. - O velho olhou para o céu durante alguns segundos, fazendo sombra para os olhos com uma das mãos e apertando a vista, então voltou a falar enquanto trabalhava. - Ele tá pra passar daqui a pouco.

 

 Um trem ainda funcionava naquele deserto, quem diria! Arthur se empolgou. Aquela viagem estava sendo melhor do que ele poderia esperar. Para fechar a ida ao cemitério de trens com chave de ouro, iria embarcar em um trem antigo de volta ao albergue e chegar como um senhor feudal. Lamentou não ter uma cartola na mochila.

 

Confirmou com o idoso catador de ferro-velho, que depois se identificou como Eugênio, que o trem de fato passava pela cidade de Tucunhas. Então perguntou se o trem parava nas redondezas.

 

 - Ele para aqui mesmo. É só fazer sinal. Anda devagar, aquela coisa velha. Um chute e eu acho que sou capaz de descarrilhar aquele trambolho. Daria um bom ferro-velho. Argh.

 

Dito e feito. Eugênio já desaparecera no meio do cemitério e o sol começava a se esconder atrás das montanhas quando o trem despontou no horizonte, soltando fumaça preta da chaminé frontal. Vinha tão lentamente que demorou mais dez minutos até que chegasse ao cemitério. Arthur fez um sinal com a mão e a máquina gigante parou, soltando um som de vapor ensurdecedor.

 

Era uma legítima Maria Fumaça, e Arthur constatou que tudo o que Eugênio falara sobre a majestosa máquina era mentira. Assim como os trilhos, a locomotiva ainda se encontrava em ótimas condições. Sua tinta preta estava polida e brilhava com a luz do sol. Não havia sinais de ferrugens. Quando subiu os degraus para entrar, viu as cortinas vermelhas internas ainda intactas. Era incrível. Abriu a porta e entrou, notando que estava boquiaberto, mas não conseguia se recompor. Lá dentro, tudo era como no século anterior, só que novo. Arthur retirou a câmera da mochila e desatou a tirar fotos, enquanto o trem retomava sua marcha lenta rumo a Tucunhas.

 

Não notou quanto tempo levou tirando fotos de cabines antigas, cortinas coloniais, móveis de madeira antiquíssimos e até da linda paisagem lá fora. Sabia que aquele trem, que vinha de algum lugar muito distante e aparentemente não passava por muitos lugares habitados, estaria quase vazio. Esperava que logo encontrasse um turista, até mesmo outro fotógrafo como ele, para trocar algumas ideias. Mas se envolveu tanto em suas fotos que só acordou de sua empolgação frenética quando a locomotiva ganhou velocidade. Foi de uma hora para outra. A marcha lenta e monótona repentinamente passou a ser rápida. As árvores começaram a se tornar borrões. Lembrou-se de suas viagens de metrô no centro de São Paulo: o trem parecia estar na mesma velocidade.

 

Então percebeu que já tinha passado por três vagões sem ver uma só pessoa. Sequer um turista ou curioso que fosse. Nada. Não havia ninguém. 

 

A primeira coisa que lhe ocorreu foi ir até o maquinista para saber o que estava acontecendo. Também gostaria de saber quanto tempo demorariam até Tucunhas. Andou com dificuldades, tentando se equilibrar com o novo balanço gerado pela alta velocidade. Alcançou a sala do maquinista e abriu a porta. Não havia maquinista. Não existiam controles.

 

Seu coração congelou. Olhou para a paisagem. Nunca tinha visto aquele lugar antes. Não sabia onde estava. Não sabia para onde ia. Então um esclarecimento lhe ocorreu: aparentemente, fantasmas não se limitavam a frequentar apenas os cemitérios convencionais. Estava dentro de um trem fantasma.

 

 

No cemitério de trens, os policiais acabavam de partir de volta para a cidade. O senhor Eugênio ainda conseguia ver as luzes vermelhas e azuis brilhando no fundo da estrada de terra, ficando cada vez mais distantes. Era a terceira vez que iam lá. Sempre a mesma história: algum moleque ia até lá para tirar fotos, então entrava no trem das seis e sumia. Os policias vinham em seguida tentando encontra-lo, mas nunca achavam nada.

 

O idoso não entendia como eles não viam os trilhos, e também não sabia por que os policiais não vinham interroga-lo, mas não se incomodava. Quando visitavam o local com suas luzes ofuscantes e cães de busca, Eugênio se encolhia dentro do seu barraco esfarrapado e esperava todos irem embora. Por vezes, os cães farejavam até dentro do seu lar feito de trapos e o olhavam nos olhos, mas os policiais pareciam não enxergar nada, então partiam.

 

Com sua bolsa a tiracolo tilintando com as barras de ferro enferrujado, andou novamente até o trilho. Ao fundo, o trem se aproximava. Era uma coisa feia, velha, muito inferior ao maquinário que ele costumava manipular anos atrás, por volta de mil oitocentos e...  quanto? Esquecera. Estava ali há tantos anos que já não sabia direito.

 

Esperou aquela espelunca chegar. Pensou em Sofia, sua esposa amada. Sentia sua falta. Queria abraça-la novamente. O trem o levaria para ela, ele sentia. Mas quando a máquina parou diante de si com o chiado agudo de vapor, ele não teve forças para subir. Algo o impedia, como sempre o impediu em todos aqueles anos. Olhou para cima, para a maçaneta chamativa da porta, então se virou e refez seu caminho até o barraco, resmungando um palavrão qualquer.

 

Amanhã talvez, ele tentaria de novo.

 

Este conto ficou em terceiro lugar no desafio "Cemitérios" do Entre Contos, em Setembro de 2013.

 

Ele também faz parte da primeira antologia "Devaneios Improváveis" do Entre Contos.

 

Ele foi traduzido para o inglês, O texto traduzido pode ser encontrado no site Entre Contos.

 

Faça o download do conto aqui.

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