Fabio Baptista
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Fabio Baptista

Review: A Redenção do Anjo Caído, por Fabio Baptista

01/06/2017

 

 

Seguindo a onda da leitura de A Batalha do Apocalipse, comecei a ler o livro A Redenção do Anjo Caído, escrito por Fabio Baptista. A temática parecida fez com que eu tivesse que girar menos a chave do cérebro, me mantendo neste mundo fantasioso dos anjos e demônios, céu e inferno, divino e profano, etc. Gostei muito da leitura! Valeu a pena cada segundo!

 

Ler Fabio Baptista sempre se traduz em uma boa experiência. Cada conto escrito por ele é diferente de alguma forma, de tal maneira que não há aquele sentimento de que "todas as obras deste autor são iguais", como acontece com alguns autores.

 

A Redenção do Anjo Caído é um livro cheio de nuances, críticas sociais e metáforas inteligentes, ladeadas por batalhas épicas, mitologia e personagens carismáticos. É um livro que vai te fazer pensar de forma filosófica, sentir medo, chorar e gargalhar. A trama é muito boa, e brilha com a técnica única do Fábio, que se destaca pelo humor afiado, sempre bem colocado, e pela honestidade em cada palavra, tornando todo o texto mais puro, como se ouvíssemos o próprio autor contando a história para nós, bem aqui do nosso lado.

 

A carga emocional do livro é pesadíssima. Fábio não economiza palavras para descrever o que cada personagem sente e pensa, e acho que isso é o que mais se destaca na leitura. Afinal, não é toda hora que temos a oportunidade de entrar nos pensamentos do próprio diabo.

 

 

NOTA: 8/10

 

Uma nota sólida, para um livro sólido. Eu recomendo a leitura para qualquer um, desde que tenha a mente aberta e não seja dogmático com o que diz respeito a bíblia e suas crenças. Fábio faz o leitor pensar, refletir sobre uma série de questionamentos e, como um bom autor, deixa que nós mesmos busquemos as respostas.


A razão do livro não receber 9 ou 10 penas está em alguns detalhes na forma de escrever do autor, e na "bipolaridade" da trama, a qual destrincho abaixo.

 

Se você quer ler o livro, não deixe de visitar o site do autor, onde você encontra links para compra do mesmo, e também para outros dos seus contos:

 

http://www.fabiobaptista.com

 

 


Destrinchando "A Redenção do Anjo Caído" (SPOILER ALERT)

 

Técnica

 

Fábio tem uma técnica muito autoral para escrever os seus textos: é intimista e sincero, por vezes desconcertando o leitor com tanta verdade nas palavras, como se encontrasse, lá no seu âmago, o que você realmente pensa a respeito de determinado assunto. 

 

Fabio muniu-se de frases longas, que intercalam pensamentos dos personagens, muitas vezes divagando do assunto principal. Isso parece uma falha, até que o autor retoma o ponto principal e você descobre que toda aquela divagação tinha, na verdade, um objetivo, e que a trama evoluiu sem que você percebesse.

 

Todo o livro é permeado por muitas críticas sociais e apontamentos sinceros sobre a forma de pensar e agir do brasileiro (ou do ser humano?) médio. Fabio tem muita coragem de colocar tudo o que pensa em palavras, tornando a leitura única, diferente de muitas que encontramos por aí. Tudo isso feito com humor bem dosado e colocado hora certa.

 

O tom jocoso que ele usa com alguns personagens é incrível. Algumas cenas, que deveriam ser pesadas e fantásticas como, por exemplo, anjos conversando nos céus ou demônios confabulando no inferno, são cheias de piadas e "alívios cômicos", galhofando personagens que, normalmente, provocariam asco e terror ao leitor. Então ele consegue, do fim de um capítulo ao início do outro, mudar a chave de comédia para drama. Ou de drama para suspense. E de suspense para comédia novamente. Em um capítulo você se escangalha de rir e, no outro, cai em prantos. Por isso insisto em dizer que a carga emocional deste livro é muito pesada, o que, para mim, é um bom sinal. Não é qualquer autor que consegue despertar tantas emoções diferentes em um leitor.

 

No livro, não há preâmbulos, censura ou voltas imensas para abordar qualquer tipo de tema: Fábio joga a realidade na sua cara, nua e crua, às vezes trazendo à tona verdades que nós costumamos evitar enxergar.

 

Adicionando um pouco de criticismo à leitura, duas coisas que me incomodaram foram as listas imensas e as referências datadas.

Fábio tomou a estranha decisão de encher o livro com listas extensas, que travam toda a fluidez da leitura e, na maior sinceridade que eu consigo usar, enchem o saco. Segue um trecho do livro que exemplifica bem o que estou falando:

 

"...da pedra que matou Abel à enteada que entrou no quarto do padrasto durante a noite e, com um corte seco na garganta, pôs fim a anos de abuso; do menino de gentil aspecto que derrubou o gigante Golias ao soldado sedento enforcando, com as próprias mãos, o companheiro de trincheira que não dividiu a água do cantil; dos gladiadores lutando pela vida em Roma aos lutadores se digladiando por fama e fortuna nos ringues e octógonos; dos cristãos fugindo de leões aos presidiários esperneando e gritando no canto das celas, sob dentadas de cachorro; das espadas trespassando armaduras nas cruzadas às guerras de controle remoto em busca de petróleo; da bala que lavou a honra com sangue aos puxões de cabelo por causa do namorado na porta da escola; dos bandidos e inocentes crucificados no calvário aos bandidos e inocentes linchados nos postes."

 

Na minha opinião pessoal, este tipo de listagem deve ser usada com parcimônia, mas existem várias delas pelo texto inteiro, e eu me vi, em certo momento, pulando todas as vírgulas das listas que ele fazia e chegando ao final, onde ele falava "enfim...", resumindo, em seguida, toda a lista em uma frase curta.


Sobre as referências datadas, eu, como leitor, não achei ruim. Até mesmo por quê, entendi todas elas. Mas como escritor, vejo que este tipo de referência perde valor muito rápido. Fábio fez menção de memes, videos famosos do youtube, escândalos políticos da atualidade, e outros assuntos que vão sumir do pensamento coletivo muito rápido. Há quem veja a vantagem disso (eu sou um deles): isso torna o livro, na verdade, uma fotografia da época em que foi escrito. É uma bela representação pontual de uma forma de pensar.

 

Aliás, "A Redenção do Anjo Caído" tem essa forte característica: é uma fotografia da nossa sociedade hoje, e discute vários dos nossos problemas e alegrias atuais.

 


Trama

 

Muito boa, e muito diferente de tudo o que já vi. O livro se divide em três partes: 

 

  • Uma primeira parte fantástica, com direito a narração da criação do universo, batalhas épicas e tudo o mais.

  • Uma segunda parte realista, onde Lúcifer anda na terra como homem. Esta parte é a que o leitor mais se identifica, por narrar o ponto de vista da sociedade em diversos aspectos e nichos. Lúcifer enxerga a vida através dos olhos de mendigos, pobres, ricos, milionários e líderes políticos. Nesta parte o fantástico ainda existe, mas fica em segundo plano.

  • Uma terceira parte que narra a volta ao fantástico, e a questões que estão muito acima do nosso entendimento.

 

Todas estas mudanças de cenários foram muito abruptas e inesperadas. A primeira mudança (da primeira para a segunda parte) foi bem-vinda e até me animou mais na leitura, especialmente pelo seu caráter  inesperado. Mas a segunda mudança, da segunda parte para a terceira, foi, inicialmente, estranha. Eu fui conduzido a achar que o livro seguiria na parte "realista" até o final, até que, súbito, fui atacado por batalhas colossais entre anjos e demônios, o fim do mundo e discussões filosóficas existenciais. Felizmente, Fabio soube fazer esta transição de uma forma perfeita, com técnica inquestionável, o que diminuiu muito o peso destas mudanças. Mas mesmo assim, o "gosto" que fica é diferente. Parece que eu não estava preparado para todas estas alterações de cenário: num momento eu ficava emocionado com dramas pessoais, noutro eu via anjos saindo no quebra-quebra com outros anjos, a la Dragon Ball.

 

Tirando este ponto, toda a trama foi muito bem conduzida. Os personagens são muito bem trabalhados e carismáticos. Giza é uma personagem linda, colocada na trama de tal forma que você se sente o próprio pai dela. Dá vontade de pegar pra cuidar. Belzebu e as bajulações cômicas dele são incríveis (eu ri muito!). "Sim, meu pontual lorde das trevas", "Mas é claro, meu filosófico senhor".
Fábio escolheu com cuidado os personagens, evitando sobrecarregar a leitura com muitos nomes. É interessante notar que Lúcifer é um anti-herói durante boa parte da trama, para então transformar-se em um vilão e, mais no final, atingir a tão esperada redenção. É uma jornada incrível seguir os seus passos, conhecer os seus pensamentos (narrados com maestria) e assistir as ações por ele tomadas e as suas consequências.
Existem outros personagens importantes, é claro. Mas as cenas no céu e no inferno são tratadas com ares de comédia, o que, para mim, foi uma decisão interessante. Fábio narra os acontecimentos nestes lugares de forma leve, para concentrar sua carga dramática inteira na vida de Lúcifer na terra como um ser humano, cujos problemas são muito mais próximos da nossa realidade.

 

As explicações dadas no livro são excelentes também. A motivação do diabo atormentar as almas no inferno, por exemplo, foi uma destas questões respondidas de forma excelente: ele extrai o Caos do cerne de cada um de nós, para criar uma arma contra deus. Aproveitando esta explicação, descobrimos também que cada um de nós nasce com o Caos no nosso cerne, e que devemos transformá-lo em divindade para sermos salvos no fim da vida.

 

Algo que me incomodou, inicialmente, foi a facilidade com que Lúcifer conseguia cargos de cada vez mais importância. como se tudo caísse do céu. Mas depois entendi que tudo caía do céu mesmo. Eram oportunidades dadas a ele para que provasse o seu arrependimento. Oportunidades de fazer algo bom pela humanidade. 


O mais interessante é que Fabio decidiu fazer as transições destes cargos de forma rápida. Em um capítulo Lúcifer é prefeito de uma cidade grande, pra no seguinte ser presidente do Brasil e, no próximo, dono do mundo. Foi uma boa jogada, evitando o tédio de narrações desnecessárias, pegando apenas o que importava de cada momento e acelerando a narração, tornando tudo mais interessante.

 

 

Destaques

 

O livro tem tantas partes interessantes que eu tive que criar aqui uma sessão de destaques só para falar de ao menos três delas.

 

  • O desfecho do debate político para governador,  entre Lúcifer e a candidata Jéssica, foi hilário. Eu me escangalhei de rir, pagando mico no ônibus enquanto lia o livro.
     

  • Destaque para a seguinte frase, que resume muito bem toda a ironia narrada no livro: "Nas ruas, e também nos escritórios e nos gabinetes executivos, as pessoas diziam “agora sim esse país vai pra frente”, pois confiavam no Diabo."
     

  • Destaque para todo o capítulo "Visões do Apocalipse". Quando comecei a ler este capítulo, torci o nariz, pensando: "Ah, ele vai mesmo fazer isso? Vou ter mesmo que ler o que está acontecendo em cada cantinho do mundo durante o fim do mundo?". Mas acabou que Fabio fez isso tão bem, mas tão bem, que este é um dos capítulos que mais mexeu comigo. Para mim, na verdade, é o melhor capítulo do livro. A montanha russa de emoções é muito intensa. As descrições são impecáveis, e cada narrativa, cada personagem, é um pequeno conto sobre o fim do mundo, que poderia muito bem ser publicado separadamente em um livro de contos. Foi um capítulo de leitura incrível, cheio de reflexões. Parece que Fábio colocou o coração dele ali.

    • Dentro deste capítulo, destaco a parte de Max, o cachorro. Foi uma parte curta, mas muito bem escrita, narrando o ponto de vista canino com tanto esmero que não tem como não ficar emocionado.

 

Insights

 

  • Dá para notar um paralelo entre a vinda de Lúcifer à terra em forma humana, narrada no livro, e a vinda de Jesus, também em forma humana. Foram dois eventos feitos com motivações opostas: Jesus veio em abnegação e de forma sacrificial, e Lúcifer veio em egoísmo, tentando conquistar a própria redenção. Mas há muitas lições aqui, como, por exemplo, o fato de deus ter dado uma chance ao diabo, para que se redimisse. Sua vida como humano aqui serviu de grande lição, mas que ele resolveu ignorar.

  • Entendo que o tema do livro é a luta entre homem e deus, entre o carnal e o divino. Fala do livre-arbítrio e critica severamente o deus onipotente e onisciente com a velha pergunta: se tudo está escrito, temos mesmo a liberdade de decisão? Neste aspecto, Lúcifer, no livro, faz o papel da humanidade: seu ódio para com deus, sua total entrega a decisões vingativas e cheias de emoções humanas, as questões que ele levanta, tudo nos aproxima muito dele, ou aproxima ele de nós. 

  • O diálogo com deus no final foi muito bem descrito. Deus responde Lúcifer de forma bela: humilde, simples e cheia de sabedoria. No final, o livro deixou em mim um pensamento de que, na mente de quem acredita na divindade, deus é incompreensível. Ele tenta nos mostrar um caminho perfeito, mas sendo imperfeitos, não conseguimos entender a perfeição. Diante desta confusão, tudo o que sentimos é frustração, dor e ódio, e é através deles que acabamos nos expressando.

  • O epílogo é bastante aberto a interpretações. A minha é de que Lúcifer, na verdade, foi escolhido por deus para redimir todas as almas que se perderam em pecado. Após milênios de sofrimento e solidão, todas aquelas almas finalmente queriam paz, e deus estava lá com eles o tempo todo, no inferno, na forma da luz que jazia dentro do Portador da Luz. Esta interpretação, porém, levanta uma questão que Fábio, espertamente, não nos revela a resposta, deixando tudo no ar: se este era mesmo plano de deus, então tudo estava realmente escrito deste o início. Ou seja, temos ou não temos o maldito livre-arbítrio?

 

Conclusão

 

Fábio é um daqueles autores que provam a força da nossa literatura nacional. O livro não deve em nada aos gringos que chegam aqui como bestsellers. É um livro polêmico, sim, e que exige certa maturidade do leitor para que não leve para o lado pessoal muitas das críticas sociais nele descritas, ou até mesmo algumas críticas às crenças religiosas. Se você é um leitor de mente madura, e que usará o livro como combustível para imaginação e muita discussão saudável, então por favor, o faça.

 

É uma jornada e tanto, que aconselho a todos!

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