Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Draemant

06/07/2017

 

Prólogo

 

Os pés percorriam a extensão do quarto de luxo, ressoando na madeira polida a impaciência de um réu inocente. De um lado para outro, do outro lado para um. A mente de Gavin, perdida em assuntos mais urgentes, deixou para os músculos a incumbência de ditar o caminho.

 

Quando seus pés o levaram para perto da janela, seus olhos capturaram a beleza de um reino inteiro. O sucateiro repousou os braços na madeira, deixando a mente vaguear pela obra de arte que se desdobrava adiante.

 

Não teve tempo para sorver a beleza de Hundlebrand. Três batidas fortes na porta e a voz abafada do guarda lá fora indicaram o fim do seu exílio.

 

- Gavin Harrold. O rei deseja vê-lo.

 

- Finalmente - ele respondeu em sussurro. Lá em baixo, o som de ferro arrastando em ferro anunciava a chegada de um trem na estação regional. Um olhar rápido no relógio de pulso indicou que aquela era a composição das treze horas.

 

Afastou-se do batente, andando pelo enorme quarto de hóspedes uma última vez. Esperava alcançar o trem das quinze.

 

Dois dias como prisioneiro era tempo demais jogado fora.

 

 

 

DRAEMANT

 

“…e será jogado no Lago de Fogo, onde Draemants o dominarão e o atormentarão por anos incontáveis. Nem palavras antigas nem novas conseguirão descrever o horror que passarás nas mãos de tão vis criaturas…” – passagem da Antiga Profecia de Salim.

 

 

O título de sucateiro inspirava estima e desprezo em igual proporção para quem o ouvisse. A estima vinha de fontes conhecidas: a audácia; a coragem; a promessa de riquezas. O desprezo vinha de todo lugar: desde o fato do ofício não requerer qualquer tipo de estudo, até a fama suja que os sucateiros mais famosos adquiriram com o tempo.

 

Gavin teve que esperar de pé no salão de auditorias por duas horas, e ainda não havia sinal de que o rei estivesse a caminho. Diante dele, o trono real o observava melancólico atrás de uma mesa de madeira maciça. O silêncio fúnebre permitiu que ele ouvisse, na distância longínqua, um novo trem aproximando-se da estação.

 

“Lá se vai meu trem das quinze” pensou, a revolta crescendo em seu âmago. Sair dali era quase tentador, não fosse a recompensa que o esperava quando o rei chegasse. “E eles estão com Photon. Não posso sair daqui sem ela”.

 

A voz poderosa de um arauto invadiu o recinto sem aviso, fazendo Gavin estremecer e expulsando as memórias de volta para o canto onde elas deveriam estar.

 

- Vossa Suprema Excelência e Autoridade, o Rei.

 

O rei Yorum deBrand carregava consigo o enorme peso da gordura que acumulou nos cinquenta e quatro anos de gula. Todo o seu corpo balançava no mesmo ritmo que ele andava na direção do trono. Um sorriso amarelo enfeitava permanentemente o seu rosto, e os braços, levemente desencostados do corpo, tentavam equilibrar a massa que teimava em encontrar uma forma de ir ao chão.

 

Atrás do rei, Yara flutuava.

 

O piso polido parecia agradecer cada passo da princesa, como se seus pés o curassem dos danos causados pelos passos do rei. Seus cabelos negros e brilhantes escorriam por ombros e costas, descrevendo uma beleza diferente de tudo o que Gavin havia visto. O sucateiro ajoelhou-se perante o rei momentos antes dele acomodar o enorme traseiro no trono. Ao seu lado direito, Yara repousou o corpo delicado; as pernas cruzadas; as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

 

- Levante-se, Gavin Harrold de Kalimar. – O rei vociferou – Ah, Kalimar. Há anos não visito sua terra natal. Sol, mar e...

 

Uma sutil inclinação com a cabeça dizia que o rei esperava que Gavin continuasse a frase.

 

- ... as melhores mulheres de Galar – ele completou.

As risadas de Yorum fizeram suas peles soltas dançarem como os adornos de uma odalisca.

 

- Não é lá que chamam a sua profissão de ... Aventureiro? É isso, não é? Aventureiro! – Uma pausa para novas risadas – este é um belo eufemismo para catador de lixo.

 

A voz da princesa soou mais cansada do que indignada.

 

- Pai...

 

Gavin foi rápido em levantar a mão e impedir que Yara continuasse.

 

- Por favor, excelentíssima alteza. Seu pai está correto. Prefiro ser um sucateiro. O título de aventureiro traz consigo a fantasia de aventuras e finais felizes. Deixo estes para os contos de fadas.

 

- E você mesmo não acaba de sair de um tal conto de fadas, Gavin de Kalimar? Resgatou a princesa de uma temível criatura, e a trouxe sã e salva para a presença da sua família. Agora, colhe os louros do serviço bem feito.

Gavin inclinou a cabeça em agradecimento.

 

- Não fiz mais do que a obrigação de qualquer homem.

 

- Ninguém tem como obrigação invadir o ninho de um Draemant.

 

Gavin levantou o olhar e encontrou os olhos perolados de Yara por uma fração de segundo, antes de dirigir a atenção para o espaçoso rei. Seus olhos o fulminavam. Dois dias de investigações sem nada encontrar para incriminá-lo – aquilo sim deveria tocar nos recônditos mais profundos de sua arrogância. Esperava um vigilante abastado ou um príncipe corajoso. Ceder a volumosa recompensa de três mil peças de ouro para Gavin pesava muito mais do que enriquecer um pobre sucateiro – pesava a sua honra.

 

- Se soubesse que encontraria tal criatura, é provável que jamais me aproximasse de lá.

 

Silêncio. Um momento antes de tornar-se constrangedor, o rei abriu uma das gavetas e puxou uma folha de papel trabalhada com tinta dourada. Encontrou uma caneta tinteiro na mesma gaveta, então fechou-a com força. Começou a escrever e falar.

 

- Devo admitir minha curiosidade sobre tal façanha. Os fatos continuam fantasiosos para mim.

 

É claro que sim”, Gavin pensou, “você pode ser obeso e arrogante, mas jamais será idiota”. O olfato do rei detectava o aroma adocicado da mentira. Mas onde ela estaria – em qual sentença? Em qual detalhe? Yorum havia parado de escrever sobre o papel para perscrutar o rosto impassível do sucateiro em busca de algum sinal.

 

Não encontraria nada ali.

 

Com o poder de duas palmas, o rei fez surgir um servo que carregava consigo os pertences de Gavin. A empunhadura de Photon projetava-se para fora da mochila, aliviando um pouco do peso no peito do sucateiro. Yorum falava, os olhos fixos no papel e as mãos ocupadas em finalizar as letras desenhadas pela fina ponta da caneta.

 

- Estou escrevendo uma Ordem de Pagamento. Você poderá trocá-la em qualquer banco de Hundlebrand. Três...mil...peças... – sua boca desenhava as palavras junto com a caneta – de... ouro...pronto.

 

Esticou a mão na direção de Gavin, o papel pendendo na sua direção. O sucateiro arriscou um passo, e depois outro, subindo os degraus que separavam a realeza da servidão. Sabia que os olhos dos guardas o seguiam.

 

Esticou a mão e pegou o papel. Yorum não deixou que ele o puxasse.

 

- Conte-me a história, Gavin. Minha curiosidade está me matando.

 

Um novo puxão – cuidadoso para que não rasgasse a fortuna – e uma nova resistência.

 

- Vossa excelência pede, e eu devo apenas obedecer.

 

A mão do rei cedeu. A riqueza passou para as mãos do catador de lixo. Gavin desceu a escada sem virar as costas para a alteza. Não ousou olhar para o papel dourado nas suas mãos, mas sentia em seus dedos o peso de uma vida inteira de trabalho.

 

- Além do mais, soube que é também um bardo por interesse.

 

O sucateiro respirou fundo e concordou com um movimento com a cabeça. Aquela era a última tentativa – o esforço final do grande rei para encontrar o que seus melhores investigadores não encontraram. Olhos de lince e sorriso falso encontrariam no rosto simplório de Gavin o que ele tanto buscava segurar para si: sua honra e a honra de sua filha.

 

A história não era difícil de lembrar, afinal havia acontecido há poucos dias.

 

O Ninho do Demônio

 

Eu acordei assustado no meio da Floresta de Thordhil, confuso e com todo o meu corpo reclamando de dores em cada junta. As perguntas vieram naturalmente. Levantei o torso, os olhos procurando uma explicação. O que eu estava fazendo ali? Quem havia me colocado naquele leito improvisado com panos velhos sobre a grama? De quem era aquela carroça a poucos passos diante de mim?

 

Um cheiro forte de fumo invadiu as minhas narinas. Folha-de-viajante. Bastou virar o rosto para notar o homem de idade sentado sobre um tronco bem próximo, o chapéu pontiagudo familiar pendendo para trás, a barba branca que se confundia com a fumaça do fumo que ele puxava em baforadas curtas.

 

- Ah, você acordou – ele falou, a voz viril destoando do corpo frágil e ressequido.

 

- Os deuses olham para você com bons olhos, Gavin de Kalimar. É sempre sinal de sorte encontrar um Mago Mercador durante as suas viagens, ainda mais numa situação como esta. Você não havia sofrido um acidente com o seu transporte?

 

- Sim, vossa excelência. Mas na hora eu não sabia de nada disso. Zharo se encarregou de me contar tudo.

 

- Zharo?

 

- O Mago Mercador. Este era o seu nome. Ele havia me encontrado na beira da estrada, a minha moto danificada e abandonada há alguns metros de distância. Ele somou dois com dois e resolveu parar por ali, cuidar dos meus ferimentos e consertar a moto com as peças que tinha para venda.

 

Yorum transferiu o peso do corpo de uma nádega para a outra, coçando a barba grisalha que invadia sua majestosa papada. Então, gesticulou para que Gavin continuasse.

 

 

Zharo me falou o preço das peças que usou para consertar a minha moto.

 

- São oito peças de ouro. O trabalho fica de graça.

 

- E a minha cura?

 

- Você não estava muito ferido. Dois feitiços leves deram conta.

 

Ah, a humildade dos Magos Mercadores. Diferentes dos seus primos acadêmicos, não havia vivalma que inspirasse tamanho desprendimento do material do que um Mago Mercador. Separei nove peças de ouro e quinze peças de prata nashiriana, despejando-as na mão ressequida do velho mago. “Bem afortunados aqueles que tratam bem dos Magos Mercadores, pois um dia você há de precisar de um”, reza o famoso provérbio.

 

- Isto é dinheiro demais. – O velho retrucou, contrariado.

 

- Você esqueceu de colocar na equação a minha vida, que ainda está comigo, até onde eu sei.

 

A risada de Zharo encerrou o assunto.

 

- Você sabe que isto não cobre a fonte de mana para a sua moto, não é mesmo?

 

- Você teve que trocá-la também?

 

- Eu teria que trocá-la, mas não tenho uma comigo. As fadas fizeram um bom trabalho em sugar toda a mana que você tinha até a última gota.

 

“Oh não, oh não, oh não” eu pensava, enquanto contornava a minha moto, avistando o recipiente vazio próximo ao cano de descarga. Uma última fada, satisfeita com a refeição, fugiu em um voo errático ao me avistar.

 

- DESGRAÇADAS!

 

A risada do velho Mago ressoou atrás de mim. Ele se preparava para subir no banco de cocheiro, a fim de guiar a carroça adiante na sua longa e eterna viagem.

 

- Precisa de uma carona até o refúgio mais próximo? Não deve ser mais do que dez quilômetros.

 

- Não, obrigado. Deve haver uma fonte de mana em algum lugar por aqui.

 

- Fontes de mana não são fáceis de encontrar em florestas de passagem como essa.

 

Eu sabia. Mas quando você é um sucateiro por tanto tempo quanto eu, você aprende a sentir a mana de um lugar. É difícil de explicar. O ar parece mais leve, e as cores parecem mais nítidas. Algo no som do ambiente muda. Você deixa de ouvir algumas coisas, e passa a ouvir outras que não estavam lá.

 

O mago andou até mim, tirando de dentro da manga um pequenino frasco contendo um líquido branco familiar.

 

- Quando vi seu equipamento, deduzi que fosse um aventureiro experiente. Por isso consertei a sua moto.

 

Ele estendeu a o frasco para mim.

 

- Pegue isto. Vai lhe ajudar. Talvez você precise.

Eu segurei o frasco entre o dedo indicador e o polegar, aproximando-o dos meus olhos para que confirmasse minhas suspeitas.

 

- Isto é Mana Refinada.

 

Zharo olhou ao redor. Os olhos do ancião exalavam preocupação.

 

- Eu e você concordamos que existe uma fonte de mana por perto, mas... – se aproximou, falando mais baixo, como se alguém pudesse nos ouvir - ... você está sentindo algo de diferente?

 

- O que poderia haver de diferente?

 

- A fonte de mana. É como se não fosse o seu lugar.

Uma nova baforada, e mais outra. Então, Zharo deu meia volta e dirigiu-se até a carroça.

 

- Cuide-se garoto.

 

- Você não cobrou pela Mana Refinada.

 

- Eu falei que era dinheiro demais.

 

O Mago sentou-se no banco e, estalando as rédeas do cavalo, retomou sua jornada.

 

 

 

Infelizmente, a Mana Refinada de Zhan não era capaz de pôr em movimento uma moto. Motos usam a energia constante de uma fonte de mana generosa, mas que libere energia de forma lenta. Mana Refinada, por outro lado, libera sua energia de forma explosiva, e é usada por sucateiros que conhecem magia para potencializar seus efeitos. Eu não esperava usá-la – afinal, a Floresta de Thordhil não tem a fama de ser perigosa.

 

Por outro lado, ela também não tem a fama de ser morada de tantas fadas quanto as que encontrei.

 

Uma das primeiras lições que você aprende quando está aprendendo o ofício de sucateiro é: se você quer encontrar uma fonte de mana, siga as fadas. Eu nunca havia visto tantas fadas juntas em um só lugar. Bastou alguns passos adentro da floresta para capturar o rastro luminoso destes diabretes infernais.

 

O primeiro sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foram os corpos de fadas mortas espalhados pelo chão.

Eu já havia ouvido falar de fadas que morreram de tanto consumir mana, mas aquela quantidade de fadas mortas era incomum. O rastro de corpos pequeninos me guiou o resto do caminho até uma antiga torre de vigia, provavelmente dos tempos das Guerras Élficas, abandonada ao tempo e ao vento, meio tombada e esperando o seu fim.

 

O segundo sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foi a escuridão.

 

Em momentos como aquele, minha confiança em Photon era o que me impulsionava para seguir em frente. Alguma magia anciã age nela – algo que não sei explicar muito bem. Ela se comunica comigo quando quer me avisar de algo, através da sua iluminação. Cores diferentes para mensagens diferentes. Adentrei a torre com ela em punho, e tudo o que ela exibia era uma leve iluminação azulada, confirmando a ausência de perigo.

 

Foi fácil perceber que a escuridão dentro da torre não era natural. O negrume era quase tangível. A luz do sol lá fora, já escassa por ter que esgueirar-se por entre folhas e galhos, negava-se a entrar. Os sons da floresta pareciam dividir do mesmo medo. O silêncio era pleno: além dos meus passos, nada mais podia ser ouvido. A única fonte de iluminação era parca luz que Photon emanava. Ela era fraca, mas jogava sombras onde antes só havia o negro.

 

Encontrei uma escada de pedra que subia a torre em espiral. A fonte de mana deveria estar no topo.

 

O terceiro sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foram as manchas de sangue. No início, a luz era tão escassa que não as notei. Conforme avancei escada adiante, meus olhos se acostumaram. No final da subida não me restavam dúvidas de que eram manchas de sangue – algumas muito recentes. Então olhei para frente, para sala no topo da torre, e vi o horror.

 

Os corpos estavam por toda a parte. A luz de Photon os iluminava em sombras. Pedaços de gente e animal misturavam-se a vísceras, ossos e sangue. O choque inicial veio antes do cheiro. O odor de carne podre e de morte era nauseante. Dei um passo para trás e soube que era hora de partir.

 

Foi quando luz de Photon tornou-se vermelha escarlate, iluminando todo o ambiente, pintando a visão do inferno diante dos meus olhos. Corpos dependurados pelas próprias vísceras; gente com partes faltando; gente com partes no lugar errado. Tudo pintado de vermelho; tudo na fração de um segundo.

 

Um leve deslocamento de ar atiçou meus instintos. O que quer que estava ali, estava atrás de mim. Desliguei a luz de Photon com um gesto rápido e adentrei o matadouro, usando a memória que tive do momento de iluminação para esgueirar meu caminho cego até uma velha mesa tombada próxima à parede. Pus-me entre parede e mesa, esperando o pior.

 

A criatura estava lá dentro. Fungava, grunhia e, ocasionalmente, batia suas asas. Eu pude ouvir seus dentes podres dilacerando mais carne para se alimentar. O barulho de sangue pingando dos corpos dependurados era fino e aquoso, mas a baba da criatura que escorria de sua língua projetada para fora conjurava um som pesado e pastoso.

Draemant.

 

Eu tive certeza de que era um dos demônios de Galém sem nunca o ter visto. Apalpei meu bolso até encontrar a Mana Refinada. Me agarrei a ela, sentindo-me mais seguro, apesar de saber que tal criatura jamais cairia vítima dos truques mágicos que eu conhecia – fossem potencializados pelo artefato ou não.

 

Eu precisava sair dali. Cada segundo dividindo o mesmo espaço daquela criatura fazia meu coração congelar. Eu sentia a alma me deixando, como se o Draemant não respirasse o ar que respiramos, mas sim as essências dos seres vivos ao seu redor. A mão da espada tremia. Esgueirei-me por entre corpos e escombros, em desespero silencioso, galgando cada centímetro até a saída. Quando finalmente a alcancei, notei a voz de uma donzela, perdida na escuridão. A voz melodiosa de alguém pedindo por socorro.

 

Congelei.

 

 

- E você retornou e a salvou?

 

O sorriso de Gavin foi sua resposta. O rei estremeceu a pele flácida em novas risadas.

 

- Você não me engana, sucateiro! Nem Thomas, O Honrado, voltaria para aquele lugar.

 

Com uma leve mesura, Gavin concordou. “Eis a sua mentira”.

 

- Tens razão, Vossa Excelência. Eu menti.

 

As armas de todos os guardas voltaram-se para ele em um instante. Com um levantar de mão, Yorum fez com que eles as abaixassem.

 

- Agora a verdade. Quero que me conte a verdade.

 

Gavin contou.

 

 

Outra lição que você aprende quando está sendo iniciado no meu ofício é a paciência. Uma caçada pode demorar horas – dias, por vezes. E quando você está encurralado e em desvantagem, não resta muito mais do que se esconder e esperar. Não há vergonha alguma nisso. Eu estava me preparando para a longa espera pela oportunidade perfeita para fugir dali, quando ouvi o som agonizante de alguém ainda vivo.

 

A princesa Yara agonizava, muito próxima de mim. Deveria estar em silêncio para evitar chamar a atenção do demônio mas, quando me ouviu entrar, buscou ajuda. Arrastou-se até mim e balbuciou com muito esforço as palavras que seriam a nossa sentença de morte.

 

- So...socorro me... ajude.

 

O Dreamant ouviu. Pelos deuses, um surdo ouviria um sussurro naquele lugar. Eu pedi para ela se calar, mas ela continuou implorando e implorando...

 

 

- E o que você fez?

 

- Eu tive que pensar rápido, Alteza. Proferi as palavras do feitiço mais avançado que conhecia.

 

- Qual feitiço?

 

- Bola de fogo.

 

Uma risada estridente fugiu por entre os dentes amarelos do rei.

 

- Você matou um Draemant com uma Bola de fogo?

 

- Eu nunca falei que o matei. Direcionei a bola de fogo para o teto, fazendo-o desmoronar. Então segurei a princesa Yara como pude e usei toda a energia da Mana Refinada para conjurar um feitiço e me fazer voar para longe dali.

 

- Draemants também voam, sucateiro.

 

- Aparentemente, não mais rápido do que alguém sob o efeito de um frasco inteiro de Mana Refinada.

 

O rei sentou-se novamente no trono, fazendo o assento ranger de dor sob o seu peso. O sorriso ainda estava lá.

 

- Salvo por um Mago Mercador. Duas vezes.

 

Gavin ergueu os ombros.

 

- Não estava nos seus planos salvar a minha filha.

 

- Eu sequer sabia que ela estava lá.

 

- E você não a salvaria, caso ela não tivesse chamado a atenção do Draemant.

 

Um golpe sobre a mesa e o rei se levantou rapidamente em um movimento impossível para alguém do seu tamanho.

 

- Deem a este homem os seus pertences.

 

Um dos guardas destacou-se e largou nos pés de Gavin sua mochila.

 

- Foi bom tê-lo conosco por dois dias, Gavin de Kalimar. Espero não ter este prazer novamente.

 

O rei Yorum deBrad balançou o seu corpo na direção de onde entrou. Os olhos de Gavin encontraram os de Yara, ainda sentada no seu trono de princesa, encarando-o de volta.

 

- Venha Yara, minha querida. É hora de deixar o sucateiro partir.

 

Com leveza, a princesa se levantou e partiu.

 

 

Com a mochila nas costas e um papel no bolso que valia mais do que a sua vida, Gavin alcançou o pátio externo do Palácio Real de Hundlebrand. Apenas mais um portão e tudo estaria acabado.

 

- Então você não me salvaria caso eu não fosse tagarela.

 

A voz plumosa de Yara freou os seus passos.

 

- Seu pai jamais acreditaria em uma versão heroica...

 

- ...e ele precisava de uma mentira, para parar de procurar a verdade. - Ela completou - Estou impressionada. Para um bardo iniciante, você mente muito bem.

 

- Não foi difícil, minha princesa. A maior parte do que eu falei era verdade. Os corpos, o sangue, a escuridão...

 

- Já chega.

 

Yara tinha a expressão atribulada, e agora o olhava frente a frente, mais próxima do que jamais esteve.

 

- Obrigada pelo que fez por mim.

 

Gavin sorriu e beijou a sua mão.

 

- Fiz o que qualquer um teria feito.

 

- Ninguém faria o que você fez. Você poderia ter me matado. Tinha todas as razões para isso.

 

- Matar é pôr o ponto final em uma história. Salvar é dar a chance para continuar. Quem sabe o seu futuro reserve algo que a redima de tudo o que fez.

 

- Nada pode redimir as vidas que eu tirei.

 

Gavin acolheu ambas as mãos da princesa entre as suas, perdendo-se no seu doce olhar.

 

- Prometa que você fará o que eu pedi.

 

- Sim. Vou procurar um sacerdote.

 

- Não um sacerdote. O sacerdote. William Bane, o melhor que existe. Ele saberá o que fazer. Até lá... -  com a ponta do dedo indicador, ele puxou para fora o pingente que o vestido da princesa escondia. Era o pequenino frasco de Mana Refinada - ...prometa que usará com cautela.

 

- Eu usarei.

 

Ela não sabia, mas o frasco não continha Mana Refinada. Aquilo era Essência de Dhamyr, o deus da cura. Sacerdotes de Dhamyr dariam suas vidas por poucas gotas daquele líquido milagroso – tão milagroso que era capaz de suspender o efeito de maldições. Zharo havia dado para ele algo de valor inestimável. Esperava um dia encontrá-lo novamente para retribuir o favor.

 

O sucateiro arrumou a mochila nas costas e continuou o caminho até o portão.

 

- Você nunca falou o que causou o acidente – a princesa exclamou.

 

- Isto não é relevante.

 

- É sim.

 

Gavin interrompeu seu caminhar.

 

- Você não é descuidado. Não foi um acidente por imperícia. Como você estava sozinho, não foi uma batida e, como ainda estava vivo, não foi um saque. Você estava cansado. Muito cansado. E dormiu. Não foi isso?

 

O sucateiro sorriu.

 

- Seu pai deveria ter usado você como investigadora.

 

Era a primeira vez que presenciava uma princesa corar.

 

- Eu estou tentando imaginar o que tiraria o sono de um dos aventureiros mais corajosos que encontrei, a ponto de fazê-lo acidentar-se.

 

- Ah, minha princesa. Isto é outra história, para outro tempo.

 

E se foi, esperando que, na próxima vez a encontrasse, ela estivesse livre da sua maldição. Afinal, se ela ainda fosse um Draemant, teria que matá-la.

 

 

 

Este conto ficou em primeiro lugar no desafio "Fantasia" do Entre Contos, de Abril de 2016.

 

Ele também faz parte da quarta antologia "Devaneios Improváveis" do Entre Contos.

 

Faça o download do conto aqui.

 

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