Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Crônica: Cegueira Seletiva

21/08/2017

 

Deixei o meu corpo cair sobre o assento reclinável do ônibus executivo. A hora do rush já havia passado; eu estava atrasado e muitas poltronas estavam vazias. Ao meu lado, a grande janela sem abertura era uma tela de cinema que passava a paisagem como um filme, rápido demais para o meu cérebro recém-desperto. Uma chuva fina caía lá fora. As gotículas dançavam ao atingir a vidraça, o vento tornando-as pequenos rios que desciam até o revestimento de borracha.

 

Só então notei que havia esquecido os meus fones de ouvido em casa. Uma tragédia das mais severas.

 

Era difícil ignorá-los sem os meus fones de ouvido.

 

Quando desci do ônibus, uma hora e meia depois, o casaco fechado até o pescoço para me proteger do vento gelado, eles já me esperavam. Ali mesmo em uma esquina da rua Graça Aranha, no centro pulsante do Rio de Janeiro: mendigos deitados sobre pedaços de papelão, amontoados em famílias, procurando espaços debaixo das marquises, não muito óbvios nem muito escondidos. Para evitar a confusão e correr o risco de serem expulsos dos seus improvisados lares temporários, desejavam não serem vistos, mas seus olhos, que seguiam os transeuntes com um misto de raiva e súplica, gritavam para que fossem notados. E eu, sem os meus fones, tinha total ciência deles.

 

Mãos dentro dos bolsos do casaco para espantar o frio que começa nas extremidades do corpo. Andei pelas calçadas da cidade, que mesmo encharcadas tinham um aspecto eternamente sujo. Virando na Rio Branco, mais mendigos se amontavam debaixo de marquises, ao lado de instituições financeiras de renome.

 

O sino baixo e constante de um VLT anunciou a sua passagem. Esperei, mas sem os fones não pude deixar de notar os seus passageiros: pessoas tristonhas, de olhares perdidos, de pé dentro do transporte de primeiro mundo. Quando a composição seguiu caminho, atravessei o trilho seguido de outras dezenas de pessoas. Na entrada da estação Carioca de metrô, os camelôs estavam ausentes, expulsos pela chuva, o que me entristeceu. Sempre gostei de ver a abundância de livros antigos jogados ali sobre mesas improvisadas: caixotes cobertos de lona ou tábuas de madeira feitas sob medida para servir aquele pequeno sebo ao ar livre.

 

Eu nunca havia comprado livro algum ali.

 

Segui meu caminho, desci as escadas da estação e, após poucos minutos, estava dentro de um vagão do metrô. O dia avançava sem trégua, os ponteiros beiravam as onze horas da manhã e, devido ao meu atraso, o vagão estava longe de estar cheio. Por isso, encontrei um canto perfeito para me recostar e ler um bom livro. Evitava os assentos em geral: sempre havia alguém que precisava descansar as pernas mais do que eu. Além disso, ali, de pé e cercado por duas paredes, seria mais difícil ser vítima de um trombadinha. Puxei o meu livro da mochila e iniciei a leitura, destilando um pouco de paz.

 

Passada a primeira estação, porém, ouvi ao longe a voz fraca de um senhor que parecia vir de outro vagão. Ele discursava constantemente, e o volume da sua voz, cada vez mais alto, denotava que andava na direção do meu vagão. Tentei imergir nas linhas do livro diante de mim, mas a voz se aproximava passo após passo, até tornar-se ensurdecedora.

 

"Me dá um dinheiro, doutô, por favor. Um dinheiro prá comprá remédio e um café. Doutora, me dá um dinheiro por favor. Me ajuda. Pra comprá um remédio e um café."

 

Desviei os olhos das letras e fitei o homem. Um rosto sofrido, ressequido, a barba cinzenta por fazer, os traços rústicos, mas longe de transparecer debilidade. Os olhos denotavam cansaço, mas não tristeza. Eu quase pude notar certa frieza, como se aquela fosse a sua profissão: pedir esmolas era o seu dia-a-dia, e ele havia chegado a certa otimização na sua atividade; os olhos treinados já encontravam as vítimas corretas, que ficariam mais incomodadas ou desconcertadas com a sua presença. Não andava a esmo, distribuindo petições ao vento com a mão aberta em vão. Ao invés disso, escolhia uma pessoa e plantava os pés diante da mesma, olhos fixos nos dela, mão estendia diante do rosto, palavras trêmulas arrastando-se para fora da boca:

 

"Me dá um dinheiro doutora. Me ajuda doutora. Pra comprá remédio e café. Doutora. Ei. Me ajuda, doutora. Pra comprá remédio e café."

 

A mulher, tão desconcertada quanto ele esperava que ela ficasse, apressou-se em achar uma nota de dois reais dentro da bolsa, que foi pega em um movimento rápido das mãos do pedinte, sem nenhuma forma de agradecimento. O homem tomou um segundo para olhar ao redor e encontrou outra vítima: um senhor que havia parado de olhar para o celular, e agora o fitava com ar de desdém. Andou até ele em duas passadas, e repetiu o ritual.

 

"Me dá um dinheiro, doutô. Me ajuda."

 

"Não tenho dinheiro não, meu querido" - o homem respondeu, devolvendo o olhar tristonho com olhos flamejantes. Suas palavras foram tão firmes que no segundo de silêncio que se seguiu, quase pude ouvir os pensamentos das pessoas ao redor: Ah, então podia fazer isso?

 

O mendigo, experiente na sua área, notou que não encontraria mais "almas caridosas" naquele vagão e tratou de passar para o próximo.

 

Estação Siqueira Campos. A multidão se espalhou para fora do metrô, formando um conglomerado de pessoas diante da escada rolante. Parte do meu cérebro pedia para que eu subisse o pequeno lance de escadas ao lado, mas a preguiça reinou, e peguei a fila para que a escada me subisse para o outro andar ao invés disso. Fora da estação a chuva ainda caía fina, e um sem número de pessoas disputava espaço para comprar guarda-chuvas por dez reais. Ao menos cinco camelôs gritavam:

 

"Familhão, familhão dez reais. Capa de chuva dez reais. Familhão, familhão dez reais. Sombrinha é cinco"

 

Encarei a chuva com as mãos novamente escondidas dentro dos bolsos. Atravessando a rua Tonelero, parte das calçadas agora era tomada por camelôs ilegais, distribuidores de folhetos de propaganda e recrutadoras para cursos de informática, todos trabalhadores árduos, mesmo debaixo da água que não cessava de cair. Manter os olhos no horizonte em indiferença tornara-se um hábito; não havia como agraciar cada uma daquelas pessoas com um bom-dia, e negar-lhes, com educação e um sorriso, todas as ofertas de propagandas que me ofereciam. Verdadeiros spams da vida real.

 

Mas seria mais fácil ignorá-los com os fones nos ouvidos.

 

Os distribuidores de folhetos deixavam suas mãos diante de mim até quase tocar o meu peito. Olhavam para o folheto, e não para os meus olhos. Ao passar, eu não era ninguém senão mais um que o ignorou. Mas dentro de mim, a sensação de ter ignorado uma pessoa de forma ativa perdurava por algum tempo. Dentistas, bordéis e restaurantes tinham suas propagandas espalhadas pelo chão, a água da chuva fazendo as vezes de cola. Uma mulher com um fichário em um braço estendeu a mão para que eu a cumprimentasse. Tinha o sorriso mais falso do mundo estampado no rosto, e vestia o uniforme de um curso qualquer.

 

“Bom dia. Deseja conhecer o nosso...”

 

“Bom dia! Não, obrigado” - respondi, mas ela esperou até o último instante para se afastar com um passo para o lado. Ignorar uma mão estendida na sua direção era a parte mais complicada. Para ela, mais um transeunte qualquer. Para mim, eu havia acabado de cometer mais um ato de falta de educação, que doía, mesmo que se repetisse diariamente.

Finalmente cheguei ao trabalho. Mais um dia tinha início. Na minha gaveta, para ocasiões extremas como esta, um fone reserva me esperava.

Na volta para casa, no final do dia, os fones no meu ouvido massageavam o meu cérebro com sons de guitarra, bateria e baixo. O canto de Hansi kürsch me guiava pelas ruas, pelo metrô e pelo ponto de ônibus. Súbito, não haviam mais mendigos, pedintes, camelôs, panfletários e garotas-propaganda de cursinhos. O horizonte era a imagem mais interessante que o meu olho conseguia focar, e Hansi versava nos meus ouvidos as linhas de Imaginations from the Other Side:

 

 

Where are these silent faces?

(I took them all)

They all went away

(now you're alone)

To turn out every light so deep in me...

 

Please reload

Posts Em Destaque

Review: A Roda do Tempo livro 1: O Olho do Mundo

29/11/2017

1/3
Please reload

Posts Recentes

April 29, 2019

February 3, 2019

July 6, 2017

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags