Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Review: A Roda do Tempo livro 1: O Olho do Mundo

29/11/2017

  

 

Eu li O Senhor dos Anéis quando tinha quatorze anos. Não devorei todos os livros de uma vez: li-os no meu tempo, ao longo de cerca de um ano e meio. Ainda me lembro bem da sensação daquela leitura. Sozinho em meu quarto, deitado sobre a minha cama, enquanto os meus olhos percorriam aquelas linhas eu me sentia transportado para outro mundo; outra realidade. E não era um lugar qualquer: era a Terra Média, uma realidade mágica, acalentadora, mesmo com todos os perigos que perseguiam os pobres hobbits.

 

Desde então, venho buscando aquela mesma sensação nas minhas outras leituras. Nunca a encontrei. O Nome do Vento; As Crônicas de Gelo de Fogo; Nárnia (esse chegou perto); Crônicas do Mundo Emerso; O rei do Inverno. Leituras excelentes, mas nenhuma delas trouxe de volta aquela sensação que apenas Tolkien havia conseguido despertar em mim.

 

Até que, logo nas primeiras linhas após o prólogo de O Olho do Mundo, enquanto Rand Al'Thor e Tam Al'Thor andavam pela estrada na direção da pequena vila de Campo de Emond, aquela sensação veio à tona novamente. Sem avisos, senti-me transportado ao meu eu de quatorze anos, deitado sobre a minha cama, acompanhando hobbits, elfos e anões em uma grande aventura. Só que agora, Rand, Tam, Perrin e o resto de sua comitiva viajavam pelo mundo fantástico de A Roda do Tempo, abraçando aventuras inesperadas e perigos inimagináveis.

 

E eu me deleitei em cada linha que li.

 

Ler O Olho do Mundo foi uma experiência nostálgica. Foi ler novamente um livro de fantasia daqueles que não se publicam mais. Não falo mal dos autores atuais: a evolução da literatura os trouxe até aqui, e muitas das suas leituras são excelentes à sua própria maneira. Falo mais daquela experiência que se foi: da estar envolto em magia, de descobrir o desconhecido e de sentir-se parte de um mundo diferente, que apenas autores como Tolkien - e agora também, Robert Jordan - conseguem proporcionar.


O Olho do Mundo é um livro de fantasia medieval peculiar. Ao mesmo tempo que está cheio de clichês, também está lotado de surpresas agradáveis, com um mundo único, diferente e muito bem criado, mas que te traz aquela estranha sensação de familiaridade. É a narração de uma aventura épica, tão simples quanto gloriosa, e está cheio de personagens fortes e inesperados, descritos com maestria.

 

Foi fácil dar nota máxima para este livro.

 

 

LIVRO ÓTIMO!!

 

 

A série da Roda do Tempo é composta por 15 livros, sendo o Olho do Mundo o primeiro (o segundo, na linha temporal da trama). Sua publicação foi iniciada em 1990, com o último livro publicado em 2013 (nem todos escritos pelo Robert Jordan, já que ele faleceu em 2007). Uma saga e tanto! Mas eu digo: terminar de ler o primeiro me fez apenas querer devorar o segundo. 

 

O livro tem os seus problemas, é claro. Consegui identificar alguns trechos lentos demais, alguns apressados demais e outros que merecem melhores explicações. Conheço muitos leitores que se sentem entediados com narrações lentas como as de Tolkien, assim como alguns que não gostam de narrações apressadas como as de Dan Brown. Eu, um leitor que também é escritor, gosto dos dois, ainda mais quando bem aplicadas no decorrer da trama, como feito por Robert Jordan: entendo que ele usa trechos lentos para evoluir os personagens e passar uma sensação de marasmo, enquanto usa trechos apressados para denotar urgência e trazer ao leitor um senso de perigo. 

 

Quanto aos trechos que necessitam de mais explicações... bem, ainda tenho 14 livros para ler!

 

Página do autor Robert Jordan na Intrínseca

Obiturário do autor no The Guardian (2007)

 

 


Destrinchando "O Olho do Mundo" (SPOILER ALERT)

 

Técnica

 

Robert Jordan parece mesmo ter vindo da escola de Tolkien. Sua escrita é detalhista, daquelas que falam de peculiaridades que você nunca esperaria ler. Mas ele não se perde nestes detalhes: estende a narrativa apenas até onde é razoável, adicionando realismo à trama, situando bem o leitor nas cenas e localidades que deseja descrever. Suas descrições extensas (calma, não tão extensas quanto as do Tolkien) fazem tudo se tornar mais mágico e palpável.

 

Para dizer a verdade, sinto que os autores de fantasia nos dias de hoje perdem muito por serem sucintos. Vivemos em uma época que preza o dinamismo, onde a trama deve andar a cada momento para que o leitor não se entedie. Robert Jordan joga isso pela janela. Ele narra o motivo do fazendeiro fazer o seu trabalho em certos horários; explica as ferramentas que um pastor utiliza; descreve as refeições que são feitas pelos personagens. Estes detalhes ampliam a visão do leitor e colocam-no lá dentro daquele mundo, como se estivesse mesmo ao lado dos personagens

 

Neste sentido, Jordan se destaca. Descreve as profissões do mundo da Roda do Tempo, e seus impactos no estilo de vida das pessoas. Descreve as reações de cada vilarejo diante de um Menestrel (por exemplo), e a alegria do povo ao ouvir canções, mesmo que já tenham sido ouvidas antes. Descreve o dia-a-dia na fazenda, os detalhes do trabalho de um cocheiro e até mesmo os afazeres de um soldado do exército.

 

Todo o livro é escrito com muito esmero. Não observei imperfeições na tradução e na revisão (percebi apenas um erro de digitação no livro inteiro), mas o que digo vai além disso. Robert Jordan parece realmente derramar a sua alma nas linhas do seu livro. Ele passa sentimentos de forma magistral, e descreve situações com igual eficácia. 

 

Por exemplo: a aparição inicial de Moiraine me fez apaixonar-me por ela de imediato. Foi muito bem escrita em cada detalhe.

 

Jordan utiliza até mesmo o elemento surpresa de forma diferente, de tal forma que uma surpresa para os personagens é mesmo uma surpresa também para o leitor. O trecho da aparição do Myddraal em Ponte Branca é um exemplo claro disso: ele mescla uma narrativa corriqueira a um evento assombroso em uma frase só:

"Ele correu os olhos pela área aberta, pelas pessoas cuidando dos seus afazeres diários, e quando voltou ao ponto de partida um Myrddraal vinha a meio caminho na praça"

 

Resumindo a minha opinião sobre Jordan: ele tem uma técnica única, escreve com o sangue e com a alma, e sabe perfeitamente aplicar pressão quando ela deve ser aplicada, e pisar no freio quando a trama pede uma desacelerada.

 


Trama

 

A trama do livro é dividida mais ou menos em três partes: A Perseguição, O Reencontro e A Praga. 

 

 

 

No primeiro terço do livro ocorre a Perseguição, quando o grupo de heróis se vê em uma situação indesejada mas inevitável, e são obrigados a abraçar uma aventura inesperada, onde são perseguidos pelas forças do mal. A trama tem um início lento, mas que escala de forma muito rápida. Diferente de muitos autores da atualidade, Robert Jordan não joga o leitor no meio da confusão. Ao invés disso, segue bem a Jornada do Herói: narra uma vida pacata, seguida por acontecimentos inesperados, culminando em uma tarefa que os heróis não desejavam realizar mas que se veem obrigados a tal.

 

Gosto de como Jordan pega o leitor em pequenas surpresas, que tornam a leitura mais divertida. Por exemplo, o embate entre Rand e o Trolloc na sua casa de campo; em como ficou óbvio que Tam Al'thor morreria com a ferida do monstro, e isso serviria de motivação para Rand seguir sua jornada, mas no final ele acaba não morrendo; o surgimento repentino de Nynaeve e como ela se torna um personagem forte aos poucos na aventura. Estas pequenas surpresas vão escalando, fazendo com que o leitor crie novas expectativas e grude os olhos nas páginas do livro esperando ver se seus palpites estão corretos.

 

Nesta parte do livro, Trollocs e Middraalls os perseguem incansavelmente onde quer que vão. Era esperado, então, a separação do grupo em Shadar Logoth. Mas esta separação foi muito bem orquestrada por Jordan, de tal forma que se tornou inevitável. O desespero de cada um dos membros do grupo em saber que está agora sozinho, e o medo que cada um tem de que o resto dos seus amigos tenha morrido, são narrados de forma primorosa.

 

Um pouco mais a frente, o trio Thom, Rand e Mat segue para ponte branca, e Thom começa a comentar, vez ou outra, um desvio da rota. Começa a cogitar se o resto do grupo está mesmo vivo, e se todo este negócio com Aes Sedai é mesmo seguro. Quando Thom divide o único dinheiro que tem entre os três, é de se esperar o pior. O sacrifício do Menestrel para salvar os garotos foi uma cena incrível, dando a ele um final digno. Ele é um personagem forte, e apesar de achar certa covardia de Robert Jordan insinuar que ele ainda esteja vivo, fiquei feliz em saber que eu posso vê-lo novamente no livro 2.

 

Ao final desta primeira parte, a perseguição continua com três grupos distintos. Aqui a leitura cansa um pouco, já que os sonhos de Rand tornam-se enfadonhos e repetitivos, e Mat, Egwene e Nynaeve começam a "encher o saco". Mat, por causa da adaga amaldiçoada que possui. Egwene, por estar frustrada e confusa com a separação do grupo. Nynaeve, por sentir inveja de Moiraine e uma paixão estranha por Lan que ela não quer assumir.

 

 

 

A segunda parte do livro, quando do Reencontro do grupo, é rápida mas muito interessante. Ela começa em Caemlyn, onde somos introduzidos ao curioso personagem Loial, e culmina na perigosa passagem pelos Caminhos até as bordas da Praga.

 

Nesta parte, a única coisa que me soou estranha demais foi o encontro entre Rand e a família real. Parece uma cena gratuita, desnecessária e que não adiciona nada ao enredo. Muito provavelmente este encontro será usado nos próximos livros, onde espero ver um Rand independente e nômade, mas neste primeiro instante, o encontro não significou nada ao leitor. Além disso, a narrativa deste momento é quase infantil, como se fosse escrita por um Robert Jordan diferente. O encontro entre Rand, Elayne e Gawin é muito ingênuo, e a intervenção de Galad, seguida do encontro entre Rand e Thollmyr foi também bastante infantil. Durante a leitura, senti que metade do que foi dito e descrito poderia ser simplesmente jogado fora sem mudar em nada a trama e a ambientação.

 

Na parte final do livro, que chamei de A Praga, Rand e o seu grupo marcham pelo território vil do Tenebroso para encontrar o Homem Verde e, consequentemente, o Olho do Mundo.  

 

Nesta parte final, fiquei um pouco decepcionado pela narrativa literal que Jordan resolveu empregar. Durante todo o livro você lê sobre a Praga e é levado a imaginar como ela seria, e durante todo o livro Jordan usa de sutileza ao descrever a magia e o mal. Os perigos são quase sempre invisíveis, mas o leitor tem a sensação de que a qualquer momento algo pode acontecer. Na capítulo 49, quando finalmente vemos a Praga, Jordan narra o óbvio: criaturas horrendas perseguindo os personagens, árvores que ganham vida e tentam agarrar os heróis, Moiraine conjurando bolas de fogo, Lan descendo o cacete em todos os inimigos, tentáculos saindo de um lago... quando comparado ao resto do livro, esta parte é tão literal que chega a estragar um pouco toda a expectativa gerada anteriormente. Apesar desta ser, sim, a parte mais tensa do livro, achei que Robert Jordan fez um trabalho muito melhor na peseguição dos corvos, quando Perrin e Egwene são guiados por um Elyas desesperado, e o leitor não sabe ao certo se os corvos os viram ou não os viram.

 

Tirando isso, o final do livro foi emocionante e muito bem feito! Algumas revelações pontuais elucidam parte dos enigmas sugeridos durante a leitura, enquanto outros mistérios são adicionados à trama. Rand, é óbvio, é revelado como O Escolhido (apesar de eu ter passado por alguns momentos de dúvida durante a leitura, achando que o escolhido bem poderia ser Perrin ou Mat). A luta entre Rand e O Tenebroso foi muito legal e bem narrada, onde vemos novamente Robert Jordan brilhar, narrando uma batalha que acontece mais na mente do herói do que no mundo físico, sem perder a empolgação.

 

O desfecho de Moiraine é muito interessante. A personagem conseguiu ganhar ainda mais força neste final, onde é revelado que ela não é o poço de bondade que aparenta ser. Antes, ela parece ser uma mulher sábia demais; tão sábia, que não se preocupa muito com garotos e aprendizes de Aes Sedai. O sorriso dela no final e a sua última frase quase sugerem que ela talvez não tenha boas intenções.

 

O desfecho de Rand foi muito bom também. Uma decisão plausível em uma situação complicada. Ele decidiu manter um caminho honroso, o que tem muito a ver com a sua personalidade.

 

O final do livro gera muita expectativa para a leitura do segundo. Apesar de ter esta temática clichê de "cuidado galera que o senhor do mal está voltando", o livro é inovador, tem um mundo muito rico e gera ansiedade no leitor para que continue a leitura.

 

Um história e tanto!

 

 

 

Destaques

 

  • O capítulo 9, Histórias da Roda, foi um pouco confuso e até meio clichê (será que era clichê na época em que foi escrito?) mas criou bem um clima de presságios e de predestinação que vinha sendo explorado desde o início da leitura, como se Rand tivesse um destino ou um passado muito ligado a Roda do Tempo, remontando eras. 

  • Os capítulos 19 (Onde a Sombra Espera ) e 20 (Poeira ao Vento) são os melhores, na minha opinião. É o clímax da aventura antes da segunda parte da trama, e é quando o grupo se separa. Tudo parece uma grande aventura de RPG muito bem narrada.

  • O capítulo 33 (As Trevas a Espera) é também um dos melhores. Ele é um conto por si só, escrito de forma inspirada e com um desfecho espetacular.

  • Meu último destaque vai para o capítulo 48, A Praga. Nele há um excelente diálogo entre Egwene e Lan, onde ela pergunta o motivo dos cidadãos de Fal Dara usarem a palavra "Paz" como uma saudação quase sagrada. Eu também me perguntava isso. A resposta de Lan foi genial: "Quando você nunca conheceu uma coisa exceto em sonho, aquilo se torna mais do quê um talismã". Neste capítulo, há um sentimento de medo muito palpável, desespero e nojo. O leitor marcha para a morte junto com os personagens. O final do capítulo, com Nynaeve se propondo a Lan, foi inesperado e muito bom de ler. A princípio achei estranho todo aquele diálogo, mas conforme o desenrolar da conversa entre eles, notei que aquela era mesmo a maneira de como as coisas deveriam acontecer. Lan jamais proporia nada a Nynaeve, e não há cortejo naquele mundo: mesmo as investidas de Egwene a Rand são muito veladas, e sempre rechaçadas por ele, mesmo que o sentimento seja mútuo. Toda a situação entre Nynaeve e Lan, mesmo que estranha e até um pouco constrangedora ao leitor, para aquele mundo foi natural. Foi uma cena pequena que disse muito sobre os personagens envolvidos e sobre o mundo do livro.

 

 

 

Insights

 

  • Aparentemente, espiar conversas atrás de árvores não é uma boa escolha no mundo de Roda do Tempo. Invariavelmente, todas as pessoas que tentaram esta manobra durante o livro foram descobertas.

  • Os Vigilants of Stendarr, de Skyrim, lembram muito os Filhos da Luz.

  • Os Latoeiros no livro lembram muito as comunidades ciganas.

  • Há uma temática feminista óbvia no livro. Os homens perderam o controle sobre o Saidin, enquanto as mulheres são controladas e sábias. Os homens cedem à ganância, as mulheres não. Homens acham que governam quando, na verdade, são as mulheres que o fazem. Os Aes Sedai masculinos causaram a ruptura do mundo, e agora devem se "amansados" pelas Aes Sedai femininas. Até mesmo na matilha de Elyas, a fêmea é a líder. Queimado, o provável macho-alfa, é explosivo e sempre escolhe o caminho violento. Durante toda a leitura, os homens / machos são sempre ligados à mesquinhez, falta de prudência e insensatez, enquanto as mulheres / fêmas são sempre ligadas à sabedoria, calma, controle e inteligência. A página 421 do livro resume muito bem esta temática.

 

 

Conclusão

 

Foi a melhor leitura que tive em anos. Há muito tempo eu esperava encontrar um livro de fantasia que saciasse a minha sede deste gênero, e Robert Jordan faz isso muito bem. 

 

E, como tenho ainda 14 livros pela frente, não sentirei sede por muito tempo!

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