Fabio Baptista
Fabio Baptista 
Fabio Baptista

Folhas ao chão

29/04/2019

 

 

Ontem fui à praia.

 

Dentro de uma máquina de metal correndo a oitenta quilômetros por hora, os pneus de borracha em atrito com o asfalto esburacado.

 

Pela janela, porém, tanto à esquerda quanto à direita: o verde. A natureza. Vastos campos de mata rasteira, montes enfeitados por tapetes de floresta densa. 

 

Então casas, quebra-molas e semáforos. E mais buracos.

 

Ocorreu a mim que os buracos eram feitos senão pela própria natureza: a chuva, a corrosão, as raízes das árvores com a sua eterna paciência e força insuperável. 

 

Na praia fazia calor. A areia estava quente; o vento soprava quente. Encontramos sombra sob um guarda-sol e lá ficamos. Enterrei os pés na areia fofa - a temperatura aceitável apenas onde a sombra tocava. Eu e minha esposa fechamos os olhos e aproveitamos - durante horas - o som das ondas incessantes quebrando sobre a orla.

 

Em algum momento nossa comida chegou e as abelhas vieram de imediato tentar bebericar um pouco de nossa coca-cola servida em latas de alumínio. Eram insuportáveis. Terminamos de beber o açúcar disfarçado de bebida e deixamos que as abelhas se alimentassem das gotas que ficaram para trás. Então voltamos a aproveitar o calor da luz do sol que refletia na areia branca. A certa altura do dia um inseto gigantesco sobrevoou nosso humilde espaço sob o guarda-sol. Tinha antenas peculiares e suas asas - tão rápidas que se tornavam invisíveis - faziam um barulho assustador. Por isso, muni-me do cardápio de plástico do quiosque e acertei a criatura em cheio. Ela voou - não por contra própria, eu diria - até a rebentação, onde ficou, inerte, até ser levada pelas ondas.

 

Voltei para a minha cadeira, enfim, e comentei com a minha esposa o quão bom era estar ali, na natureza, os pés enterrados na areia, aproveitando o som das ondas e banhando-se na água salgada.

 

 


Ontem choveu. Uma chuva fina mas com ventos fortes. Fortes demais para o povo da cidade.

 

De manhã, porém, eu sequer me lembrava dela: enquanto o vento açoitava as paredes da casa, eu dormia sob o som reconfortante do ar-condicionado, de modo que, quando acordei, toda a lembrança do aguaceiro era o chão úmido e as gotículas que restaram sobre a lataria do carro.

 

Só me lembrei da tormenta quando enfim cheguei ao local de trabalho e notei que os funcionários da limpeza estavam em uma força-tarefa, varrendo a quantidade exorbitante de folhas, galhos e frutos que caíram das árvores durante a noite. Esforçavam-se em limpar primeiro o estacionamento, fazendo montinhos de folhas e galhos ao passo que liberavam, uma a uma, as vagas para que os carros dos funcionários pudessem estacionar. Deixei o meu carro em um destes locais.

 

No interior do complexo de prédios, ao ar livre, a quantidade de folhas ao chão era ainda maior. Os montinhos juntados pela equipe de limpeza espalhavam-se por todo o lugar. Ocorreu-me um pensamento involuntário:

 

"Mas que zona essa chuva fez, ein?"

 

Então parei de andar e olhei ao redor.

 

Era mesmo uma bagunça? Quem bagunçava ali, afinal? As folhas ao chão ou as vassouras que dançavam de lá para cá?

 

Desde quando passamos a odiá-las? Falo das folhas, é claro. Do sentimento de pisar sobre elas, quebrando seus galhos. Desde quando olhamos para as folhas ao chão e achamos que é feio? Por que é isso que é: feiura que representa o descuido. O cuidado vem de jogar tudo para um canto, tocar fogo e refazer o mesmo trabalho no dia seguinte. As folhas caem ao chão - um processo natural. As folhas são varridas e descartadas - também um processo natural. 

 

Pois não somos nós parte da natureza?

 

Confuso, a primeira coisa que me veio à mente é que somos assim desde tempos imemoriais. Não gostamos do mundo: de sua bagunça, de sua temperatura, de suas doenças e de seus insetos. Me perguntei, enfim, se pertencíamos mesmo a este lugar.

 

Mas, com a rara sabedoria de identificar perguntas sem resposta, descartei o pensamento - não ao esquecimento, mas à um canto onde poderá ser revisitado mais tarde - e fui trabalhar.

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